Abril Azul: conscientização e luta por inclusão no espectro autista
Pelo menos uma a cada 46 crianças brasileiras são portadoras de algum tipo de autismo. No mundo, a proporção é de uma a cada 160 crianças, segundo dados da Organização Mundial da Saúde de 2023. O levantamento é feito a cada dois anos, o que significa que os números podem ter crescido.
Este mês tem um significado especial para quem enfrenta diariamente a busca por diagnóstico precoce, tratamento e, sobretudo, aceitação do Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Abril Azul, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), visa conscientizar a população sobre o autismo, promover inclusão e combater o preconceito. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 70 milhões de pessoas no mundo são autistas.
Segundo a médica Antonia Tonus, diretora do Serviço de Psiquiatria do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), características do distúrbio podem ser notadas na primeira infância e incluem alterações no andar, na linguagem e na interação social com outras crianças.
“O diagnóstico precoce é essencial para estabelecer o plano terapêutico multidisciplinar específico para cada caso, que minimizará os efeitos do TEA na adolescência e fase adulta”, diz a médica explicando que o transtorno pode afetar a interação social, a linguagem verbal ou não verbal e alterações comportamentais.
Não existe um padrão genético que identifique os portadores de autismo, tampouco padrão para avaliar a presença da doença. Segundo a especialista, porém, uma marca importante para a identificação são os padrões repetitivos de comportamento, como movimentos contínuos, interesses fixos e sensibilidade a estímulos sensoriais (barulho ou luzes).
O diagnóstico pode ser feito pelo pediatra, psiquiatra ou neurologista infantis e exige, além de uma avaliação clínica completa da criança a partir das informações passadas pelos pais, a aplicação de testes psicológicos e neurológicos específicos.
A médica destaca que o TEA possui vários graus de intensidade, o que exige tratamento adequado personalizado com estímulos amplamente exercitados em terapias com equipe multidisciplinar, tornando o indivíduo adulto mais adaptável. “O plano terapêutico deve abranger as necessidades da criança para estímulo motor, social, habilidades diárias e desenvolvimento escolar, a fim de ajudar o paciente a compensar o prejuízo que o distúrbio causa no seu cotidiano”, completa.
Método ABA – Considerado uma das intervenções mais eficazes para crianças, adolescentes e adultos com autismo, o método ABA é uma Terapia Comportamental Aplicada que se concentra em analisar e modificar comportamentos com princípios científicos, promovendo a aprendizagem e a autonomia da criança e faz parte de um projeto em desenvolvimento no Iamspe. O método prevê terapia individualizada e baseada em evidências e prevê que cada sessão seja adaptada para o desenvolvimento de cada paciente, variando conforme as características do indivíduo.
A estrutura da equipe multidisciplinar inclui um coordenador que seja mestre e doutor em teoria comportamental infantil (ABA), e reunirá diferentes profissionais de saúde, como neuropediatra, psiquiatra infantil, psicólogo, psicopedagogo, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, educador físico, nutricionista, odontopediatra, fonoaudiólogo e assistente social.
“A equipe cuida mais do que somente a criança autista. Prepara os pais da criança com TEA para atuarem de forma que, no decorrer dos anos, o paciente esteja adaptado e dependa menos de terapias que passam a ser apenas a título de manter a qualidade de vida da pessoa já adulta”, conclui a diretora.
TEA – O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento caracterizada por déficits na comunicação, interação social e padrões de comportamento repetitivos ou restritos. Não há uma causa única definida, mas estudos apontam para a interação entre fatores genéticos e ambientais.
O TEA está classificado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria, que o divide em três níveis de suporte: leve, moderado e severo. Já a Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da OMS, considera ainda subdivisões relacionadas à presença ou não de deficiência intelectual e/ou comprometimento da linguagem.
Não é doença – Embora o autismo esteja catalogado em manuais médicos, não se trata de uma doença, e sim de uma condição que demanda acompanhamento multidisciplinar – incluindo psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais. O preconceito ainda é uma barreira, mas a mobilização de famílias e profissionais tem avançado na garantia de direitos e na construção de uma sociedade mais informada e inclusiva.
Conscientizar é o primeiro passo. E o Abril Azul existe justamente para iluminar essa causa, mostrando que, com compreensão e apoio, é possível transformar realidades.