Com quase duas décadas dedicadas ao serviço público, Naiana Landucci é hoje uma das lideranças femininas na gestão ambiental paulista. Atual secretária executiva do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Consema) e responsável pela recém-criada Assessoria de Colegiados da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), ela tem vivido um novo capítulo da carreira – desafiador e estratégico.

Sua trajetória, no entanto, vai muito além dos cargos. É uma história de vocação, superações pessoais, reencontros com sonhos antigos e, acima de tudo, um compromisso genuíno com a causa pública e ambiental.

Como começou sua trajetória no serviço público?

O desejo surgiu ainda na graduação. Eu me formei em 2005 e, no ano seguinte, prestei concurso para o antigo Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais (DPRN). Na época, acabei seguindo outro caminho e fui trabalhar no Incra, no Governo Federal. Quase me esqueci do concurso, mas fui chamada em 2008 – pouco antes de ele caducar. Quando vi que era para o DEPRN, que era o meu sonho desde estudante, não hesitei. Voltei para São Paulo, minha cidade natal, e mergulhei de cabeça no universo da fiscalização ambiental. Foi o início de tudo.

Como foi sua evolução dentro da Semil?

Comecei nas unidades regionais, passando por municípios como Embu das Artes, São Bernardo do Campo e a capital. Atuei em diversas frentes da fiscalização, o que me deu uma visão ampla da estrutura e dos desafios da área. Aos poucos, fui assumindo cargos de coordenação e, mais tarde, cheguei à direção estadual e à área de planejamento. Acompanhei transformações profundas na Secretaria, como mudanças de atribuições com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) e reestruturações internas. Trabalhei com temas como mananciais, infrações ambientais, planejamento estratégico. A fiscalização foi, por muitos anos, minha casa profissional – e uma grande escola.

E agora, à frente do Consema, como tem sido essa nova fase?

É um recomeço em muitos sentidos. Hoje acumulo dois papéis distintos, mas complementares: sou secretária executiva do Consema e lidero a Assessoria de Colegiados, criada para apoiar o funcionamento de 12 instâncias participativas da secretaria. Com isso, saí do olhar mais técnico da fiscalização e passei a atuar na articulação de políticas públicas de forma transversal. Tenho lidado com temas que vão desde mudanças climáticas até energia, biodiversidade e recursos hídricos. É uma imersão densa, mas extremamente enriquecedora – tanto no campo profissional quanto pessoal.

O que motivou essa transição?

Depois de tantos anos na fiscalização, eu sentia que precisava de novos desafios, algo que me tirasse da zona de conforto. Também foi um movimento pessoal: queria superar bloqueios, como o medo de falar em público ou de ocupar espaços mais expostos. Essa nova etapa veio no momento certo e, para mim, representa um amadurecimento – profissional, emocional e humano.

De onde vem seu desejo de atuar no serviço público?

Minha maior inspiração foram as mulheres da minha família. Minha mãe e minha avó foram servidoras públicas, mulheres fortes, líderes dentro e fora de casa. Cresci com esse exemplo de que servir ao público é uma missão. Estudei em universidade pública e sempre tive consciência do papel transformador do Estado. Por isso, trabalhar pelo bem coletivo, pela proteção ambiental e pela justiça social nunca foi só uma profissão – sempre foi uma escolha de vida.

Como é atuar em uma secretaria onde tantas mulheres ocupam espaços de liderança?

É algo inspirador e transformador. Tive grandes referências femininas ao longo da carreira, mulheres que abriram caminhos. Hoje, vejo um novo momento: mulheres chegando a posições de decisão. A Mirela Lourenço, por exemplo, é a primeira chefe de gabinete mulher e servidora da casa. Isso muda o ambiente. Lembro que, na fiscalização, muitas vezes eu era a única mulher em uma sala com coronéis e policiais. Ver esse avanço é um sinal claro de que estamos construindo uma nova cultura institucional – mais diversa, mais equitativa e mais potente. E isso precisa ser permanente.

Quais foram os maiores desafios enfrentados na fiscalização? E o que te espera agora?

A comunicação sempre foi um grande desafio. Nenhuma política pública se constrói sozinha, especialmente quando lidamos com temas delicados, como ocupações irregulares em áreas de manancial. A articulação com prefeituras, órgãos parceiros e a sociedade civil é essencial. A nova estrutura da secretaria, mais integrada, tem contribuído bastante, como vemos nas ações da Operação São Paulo Sem Fogo, que envolve articulações com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), por exemplo.

Agora, no Consema, os desafios são outros. Estamos diante de pautas urgentes e complexas que exigem articulação, escuta ativa e compromisso com a transparência. Traduzir essa complexidade em políticas consistentes e participativas é o objetivo.

O que vem pela frente no Consema?

Estamos em um momento importante de transição de conselheiros, o que traz renovação e novas perspectivas. Temos pautas prioritárias em andamento, como o licenciamento ambiental municipal – que, aliás, é a página mais acessada do nosso portal -, e a definição das Áreas de Preservação Permanente (APPs) urbanas, conforme prevê o Código Florestal. Há também os planos de manejo, a articulação com a Cetesb nos processos e a realização das audiências públicas. O Consema tem o papel fundamental de garantir que a sociedade participe efetivamente da formulação e acompanhamento das políticas ambientais. Nosso foco é fortalecer essa ponte entre o poder público e a população.

E fora do trabalho? Quem é a Naiana?

Sou taurina, bem caseira! Amo estar com a minha família, cozinhar, cuidar da ceia de Natal – é sempre comigo. Gosto de viajar, conhecer lugares e culturas novas, e sou apaixonada por cães. Hoje tenho um companheiro de quatro patas, mas o anterior adotei durante uma vistoria da fiscalização. Nossas histórias se cruzaram no trabalho, e isso diz muito sobre mim: minha vida pessoal e minha missão profissional se entrelaçam o tempo todo.