Antes mesmo de escolher uma profissão, Juliana Collaço já convivia com algumas das questões que, anos mais tarde, fariam parte de sua trajetória profissional. Filha de um geólogo e neta de um engenheiro sanitarista, cresceu no Rio Grande do Norte ouvindo conversas sobre natureza, água, saneamento e as condições de vida nas cidades.

Na hora de escolher uma carreira, chegou a considerar a medicina. Foi, porém, ao ingressar no curso “Tecnologia em Saneamento Ambiental” que descobriu uma outra forma de cuidar da saúde das pessoas. “Eu pensava: posso cuidar da saúde das pessoas cuidando do ambiente em que elas vivem”, conta.

A escolha abriu um caminho que a levaria por diferentes cidades e áreas de atuação até São Paulo. Depois de experiências com monitoramento ambiental e saneamento em Salvador, um mestrado em Campinas e o ingresso na Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Juliana passou pela fiscalização, pelo licenciamento e pela avaliação de impactos ambientais. Em 2022, assumiu um novo desafio na área de regulação do saneamento e, neste ano, chegou à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil).

Hoje, participa da construção de políticas públicas que chegam a municípios de todo o Estado. A mudança de posição, da fiscalização na ponta para a formulação de políticas, ampliou sua perspectiva sobre o trabalho, mas preservou uma convicção construída ao longo de toda a trajetória: por trás de cada processo, cada indicador e cada decisão pública existem pessoas e histórias concretas.

Essa percepção aparece em diferentes momentos de sua carreira. Em uma fiscalização motivada pela reclamação de uma família sobre o ruído de uma indústria, por exemplo, Juliana entrou na casa de uma moradora e encontrou o marido, vítima de um derrame, acamado. Anos depois, durante uma visita a Paraisópolis, voltou a enxergar de perto aquilo que os números do saneamento nem sempre conseguem revelar: famílias que, mesmo com uma rede de esgoto disponível, não conseguem arcar com os custos para se conectar a ela.

Entre experiências profissionais, mudanças de cidade, desafios pessoais e momentos em família, Juliana conta nesta entrevista como uma história que começou dentro de casa acabou se transformando em uma trajetória dedicada ao meio ambiente, ao saneamento e ao serviço público.

Curta Semil: Como foi a sua trajetória até chegar à Semil e à área de saneamento?
Minha trajetória começou na Cetesb. Sou concursada da companhia e, durante muitos anos, trabalhei na Diretoria de Controle e Licenciamento. Passei pelas agências de Limeira e Campinas, atuando com fiscalização, licenciamento ambiental e avaliação de impactos.
Foi uma experiência muito importante porque o trabalho de campo permite enxergar os problemas de perto. Você está em contato com os municípios, com as empresas, com as comunidades e percebe como uma questão ambiental, que muitas vezes aparece em um processo ou em um relatório, pode se refletir diretamente na vida das pessoas.
Em 2022, fui convidada para trabalhar na área de saneamento da agência reguladora de serviços do Estado. Cheguei a um universo novo, sem experiência anterior em regulação, mas levei comigo tudo o que havia aprendido no licenciamento e na fiscalização ambiental.
E isso acabou sendo muito útil. Afinal, são áreas que dialogam o tempo todo. A regulação também precisa olhar para o cumprimento de obrigações, para a qualidade dos serviços e para os impactos das decisões.
Fiquei quatro anos na agência e, neste ano, fui convidada para vir para a secretaria. Foi uma transição muito natural, porque, na agência, eu já acompanhava diversas políticas públicas relacionadas ao setor.
Aqui, também existe uma relação muito próxima com a Cetesb e com a agência reguladora. Eu já conhecia muitos dos interlocutores e, de certa forma, já tinha vivido o outro lado dessa relação.

E o que despertou seu interesse pela área ambiental?
Curiosamente, meu primeiro vestibular foi para medicina. Eu não passei e, para não ficar mais um ano fazendo cursinho, comecei o curso “Tecnologia em Saneamento Ambiental”.
Eu morava no Rio Grande do Norte e sempre tive uma relação muito próxima com a natureza. Meu pai era geólogo, então cresci cercada por esse universo. A natureza fazia parte da nossa vida, das conversas e da forma como aprendíamos a observar o mundo.
Meu avô também era engenheiro sanitarista. Então, questões como levar água tratada para as pessoas, garantir o esgotamento sanitário e pensar na infraestrutura das cidades eram assuntos que, de alguma maneira, sempre estiveram presentes na minha casa.
Quando comecei o curso, eu simplesmente adorei. E, aos poucos, fui entendendo que havia encontrado uma outra maneira de trabalhar pela saúde das pessoas.
Eu pensava: posso cuidar da saúde das pessoas cuidando do ambiente em que elas vivem.
Foi quando percebi que saneamento e meio ambiente também são saúde pública. Pensar na qualidade da água, na salubridade dos lugares, no tratamento do esgoto e nas condições em que as pessoas vivem é, também, pensar em saúde.

O que muda quando você sai da fiscalização e passa a atuar na formulação de políticas públicas?
Muda bastante porque você passa a ocupar outro lugar dentro desse processo. Na Cetesb, eu trabalhava na ponta. Fiscalizava, acompanhava, identificava problemas. Você está muito próximo daquilo que acontece no território e consegue perceber as dificuldades de uma forma muito concreta.
Aqui, a perspectiva é diferente. Nós participamos da construção das políticas e dos programas que vão orientar ações em todo o Estado.
É uma mudança muito significativa porque, quando você está na ponta, muitas vezes enxerga o problema, entende a sua dimensão, mas não tem todos os instrumentos para agir sobre ele de forma mais ampla.
Aqui, conseguimos olhar para o todo. Pensamos nas políticas que vão chegar aos municípios, nos programas que podem orientar novas soluções e nos caminhos para ampliar o alcance dessas ações.
Para mim, é muito satisfatório estar aqui justamente por isso. A experiência que tive anteriormente permitiu que eu conhecesse os problemas mais de perto. Agora, tenho a oportunidade de participar da construção de instrumentos que podem ajudar a enfrentá-los.

Existe alguma experiência da sua carreira que tenha mostrado, de forma muito concreta, o impacto do seu trabalho na vida das pessoas?
Sim. Acho que, quando trabalhamos na área ambiental, principalmente na fiscalização, existem momentos em que entendemos, de uma forma muito concreta, o sentido do nosso trabalho.
Uma situação que me marcou aconteceu durante uma fiscalização relacionada a uma reclamação sobre o ruído de uma indústria. A pessoa dizia que o barulho era muito intenso e que não conseguia dormir.
Fui até o local para entender melhor a situação e apurar o que estava acontecendo.
Em determinado momento, uma senhora me levou até um quarto onde estava o marido dela. Ele havia sofrido um derrame e já não conseguia se levantar sozinho. Aquilo me marcou profundamente.
Até então, eu estava ali para investigar uma reclamação sobre ruído. Era uma ocorrência, um problema ambiental que precisava ser avaliado. Mas, quando entrei naquela casa, entendi que existia uma vida inteira por trás daquela denúncia.
Era uma família com poucas condições financeiras, que não podia simplesmente se mudar. E aquela indústria estava causando um transtorno em uma realidade que já era, por si só, muito difícil.

E, mais recentemente, alguma experiência na secretaria também trouxe essa percepção?
A visita a Paraisópolis me marcou bastante. Acho que, quando falamos sobre saneamento, muitas vezes pensamos nos números, nos índices de atendimento, nos quilômetros de rede. Tudo isso é fundamental, mas, quando você vai até o território, esses números ganham uma dimensão muito mais concreta.
Hoje, um dos grandes desafios que ainda temos é o esgotamento sanitário. O acesso à água avançou muito, mas ainda existem pessoas convivendo diariamente com o esgoto próximo de casa, com rios poluídos, mau cheiro, mosquitos e uma série de situações que afetam diretamente a saúde e a qualidade de vida.
Quando fomos a Paraisópolis, estávamos acompanhando uma iniciativa relacionada à conexão das famílias à rede de esgoto. E foi muito marcante perceber que, muitas vezes, o problema não é a ausência da rede, mas a impossibilidade de uma família arcar com os custos necessários para fazer essa conexão.
Quando existe o apoio do poder público, aquela família consegue se conectar à rede e afastar de perto um problema que fazia parte do seu cotidiano.

Sua trajetória também passou por diferentes cidades e estados. Como foi esse caminho até São Paulo?
Minha história é um pouco espalhada pelo Brasil. Minha família é de Salvador, mas meu pai foi morar no Rio Grande do Norte por causa do trabalho, e eu nasci lá. Vivi no estado até os 12 anos e, depois, nos mudamos para Minas Gerais.
Fiquei alguns anos em Minas e, mais tarde, voltei para Natal. E foi lá que fiz a faculdade.
Depois de formada, fui para Salvador, onde comecei a trabalhar com monitoramento ambiental e tive experiências relacionadas à área de saneamento.
Em determinado momento, senti que queria continuar estudando e aprofundar a minha formação. Decidi fazer um mestrado e escolhi Campinas.
Vim para São Paulo para estudar e, como acontece com tantas histórias, acabei ficando. Depois que terminei o mestrado, fiz o concurso da Cetesb.
E trabalhar na Cetesb era, de certa forma, um sonho antigo.
Quando eu trabalhava em Salvador, muitas das referências técnicas que utilizávamos vinham da companhia. Para avaliar a qualidade das praias, para discutir monitoramento ambiental, para analisar diferentes questões técnicas, a Cetesb era uma referência.
Eu sempre dizia que, se um dia eu me mudasse para São Paulo, queria trabalhar na Cetesb.
A companhia tinha — e tem — uma importância muito grande para a área ambiental. Para quem trabalhava em outros estados, era uma referência que aparecia constantemente.
Então, quando fui para Campinas, terminei o mestrado e tive a oportunidade de fazer o concurso, parecia que os caminhos começavam a se encontrar.

Você enfrentou algum desafio pessoal importante ao longo dessa trajetória? Se sim, como essa experiência transformou sua relação com o trabalho?
Há cerca de dez anos, eu tive câncer de tireoide. Foi uma experiência que marcou profundamente a minha vida.
Eu tinha 34 anos e vivia em um ritmo muito intenso. Na Cetesb, o trabalho era bastante dinâmico. Havia fiscalização em campo, plantões, emergências, atividades que exigiam disponibilidade e, muitas vezes, mudanças repentinas de rotina.
Eu sempre fui uma pessoa muito agitada, com vontade de fazer tudo, produzir, entregar e resolver. Quando descobri a doença, precisei parar.
O diagnóstico veio de um acompanhamento médico na própria Cetesb, pelo Dr. José Albino. Passei pelos exames, pelo tratamento e pela cirurgia. Tive que retirar a tireoide e, depois, enfrentar o período de recuperação.
Com o tempo, passei a enxergar aquele período como um momento que me obrigou a desacelerar e a olhar para aquilo que, até então, talvez eu não estivesse conseguindo enxergar.
Para mim, foi como se a vida dissesse: “Calma; priorize o que é importante. Cada coisa tem o seu tempo”. Antes, eu estava muito concentrada na ideia de produzir, entregar e fazer tudo acontecer. Depois dessa experiência, comecei a olhar mais para as pessoas.
Percebi que não adianta pensar apenas no resultado individual. Se uma pessoa não está bem, o trabalho não pode depender apenas dela. É preciso que exista uma equipe capaz de seguir junto.
Não era apenas “a Juliana está com um processo atrasado”. Se alguém não pudesse estar ali por algum motivo, a instituição precisava continuar funcionando.
Foi quando comecei a compreender de maneira muito mais profunda o sentido do trabalho em equipe.

E como esse aprendizado aparece na sua atuação hoje?
Acho que ele aparece, principalmente, na forma como tento olhar para as pessoas e para as realidades que estão por trás do trabalho. Hoje, na secretaria, pensamos em políticas públicas e no apoio técnico aos municípios. E, para fazer isso, não basta imaginar que existe uma única realidade.
Cada município tem sua história, suas dificuldades, suas urgências e suas possibilidades.
A experiência que vivi também me ensinou muito sobre a importância de trabalhar junto. Nenhuma política pública é construída por uma pessoa só. Nenhum resultado é individual.
Também me marcou muito a forma como fui assistida durante o tratamento. O acompanhamento médico, o cuidado e a possibilidade de fazer tudo o que era necessário me fizeram perceber a importância de uma instituição olhar para as pessoas que fazem parte dela.
No fim das contas, trabalhar no serviço público é justamente isso: compreender necessidades, construir soluções e não esquecer que, por trás de cada processo, de cada município e de cada política, existem pessoas.

Quem foram as pessoas que mais influenciaram sua trajetória profissional ou ajudaram a construir a profissional que você é hoje?
Acho que a minha história profissional começa, de certa forma, dentro da minha própria família. Meu pai era geólogo e meu avô era engenheiro sanitarista. Então, mesmo antes de escolher uma profissão, eu já convivia com esse universo.
Já o meu avô trouxe para perto de mim o universo do saneamento. Questões como água tratada, esgotamento sanitário e infraestrutura faziam parte das conversas em casa.
Na época, eu não imaginava que seguiria um caminho tão próximo ao deles. Meu primeiro sonho profissional, inclusive, era a medicina.
Mas, olhando para trás, percebo que essas referências estavam presentes.

Fora do ambiente de trabalho, o que ajuda você a recarregar as energias? Quais são seus hobbies, programas ou atividades preferidas?
Minha família ocupa um lugar muito importante na minha vida. Tenho dois filhos e adoro fazer coisas com eles. Agora eles estão crescendo, entrando na adolescência, então as formas de estar junto também vão mudando. Mas sempre gostei muito de brincar, passear e viver experiências ao lado deles.
Temos uma espécie de tradição: conhecer praias novas. Eu adoro o mar e, sempre que possível, gosto de descobrir um lugar diferente.
A última viagem que fizemos juntos foi para a Ilha do Cardoso, em Cananéia. Eles ainda não conheciam e foi muito especial viver essa experiência em família.
E existe também um desejo que tenho para as próximas viagens: quero levá-los ao Rio Grande do Norte, para conhecerem o lugar onde nasci.
É curioso porque a gente quer mostrar aos filhos tantas coisas do mundo, mas também sente vontade de apresentar a eles os lugares que fazem parte da nossa própria história.
Viajar, conhecer praias e estar com meus filhos é o que mais me ajuda a desacelerar. Acho que, depois de tantos anos vivendo uma rotina intensa, aprendi a valorizar mais esses momentos.