A lei e a natureza: os bastidores da fiscalização ambiental na Semil
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) carrega entre suas missões mais centrais a proteção ambiental. É uma responsabilidade que exige estratégia, firmeza e sensibilidade, porque não se trata apenas de aplicar a lei, mas de garantir que a biodiversidade, os rios, as florestas e os recursos naturais de São Paulo cheguem às próximas gerações. À frente dessa missão está André Rocha, diretor de Proteção e Fiscalização Ambiental, servidor de carreira que construiu sua trajetória dentro da secretaria e hoje comanda uma das diretorias mais complexas da pasta.
Mais do que números e processos, André fala sobre a fiscalização com a convicção de quem acredita que o trabalho diário deixa marcas visíveis na paisagem, no clima e até na qualidade de vida de quem vive em São Paulo. Nesta entrevista, ele compartilha como enxerga sua função, os desafios e as motivações que o movem.
Como começou sua trajetória no serviço público e de que forma chegou à área de fiscalização ambiental?
Entrei no serviço público em 2018, na Secretaria de Recursos Hídricos, atuando na área administrativa. Era um trabalho importante, mas ainda distante daquilo que eu desejava. Em 2019, com a reestruturação administrativa que uniu diferentes pastas, surgiu a chance de migrar para o Meio Ambiente.
Sempre me atraía a ideia da fiscalização. É um campo que não lida apenas com papéis, mas com consequências reais: o corte de uma árvore, a poluição de um manancial, a invasão de uma área protegida. Ali eu vi a oportunidade de unir meu desejo pessoal com uma missão de grande impacto coletivo. Desde então, não me afastei mais desse caminho.
Qual é sua função hoje na Semil e quais os principais desafios da diretoria que você comanda?
Hoje exerço a função de diretor de proteção e fiscalização ambiental. Isso significa que estou à frente de uma engrenagem delicada: somos responsáveis pelo processamento de todos os autos de infração ambiental lavrados no Estado e pela coordenação de ações de campo em conjunto com a Polícia Militar Ambiental e outros órgãos parceiros.
A rotina é uma alternância entre o administrativo e o estratégico. De um lado, temos a análise jurídica de milhares de autos que chegam até nós todos os anos, cada um com sua história, seu impacto, sua consequência. De outro, estamos constantemente planejando operações, avaliando dados, mapeando áreas de risco, construindo normas que ajudam a evitar tragédias, como os incêndios florestais.
O maior desafio, talvez, seja equilibrar a imensidão da máquina pública com a urgência que o meio ambiente exige. A natureza não espera. Nós precisamos estar prontos para dar respostas rápidas sem perder a profundidade técnica e a seriedade jurídica que o processo requer.
Esse desejo de trabalhar com fiscalização vem de onde? Houve alguma inspiração pessoal?
Curiosamente, não. Não venho de uma família de ambientalistas. A possibilidade de transformar normas e decretos em algo palpável, em proteção efetiva daquilo que nos sustenta, é o que me interessa. Penso que a inspiração veio da própria natureza. Sempre tive fascínio por como o equilíbrio ambiental é, ao mesmo tempo, tão resistente e tão frágil.
Como funciona, na prática, o trabalho de fiscalização ambiental?
O processo é complexo e envolve muitas mãos. A Polícia Militar Ambiental é quem atua na linha de frente, lavrando autos de infração em campo. Esses documentos chegam até a nossa diretoria, onde são analisados minuciosamente. É nesse momento que entram o rigor jurídico e a capacidade técnica da nossa equipe: avaliamos os recursos, conduzimos conciliações, verificamos reincidências, encaminhamos para as medidas cabíveis.
Mas a fiscalização não se resume a reações. Trabalhamos de forma preventiva, antecipando problemas. Usamos dados para mapear onde os crimes ambientais são mais frequentes, avaliamos quais áreas precisam de reforço, produzimos normas que buscam evitar que a destruição aconteça.
Gosto de pensar que nosso trabalho é como cuidar de uma casa muito grande: algumas vezes precisamos reparar os danos que já aconteceram, outras vezes reforçar as portas e janelas para evitar que novos problemas surjam.
Em momentos de maior crise climática, como queimadas ou períodos de estiagem, a rotina muda?
Muda completamente. Em 2023, por exemplo, vivemos uma das temporadas mais difíceis de queimadas, e o Governo do Estado instalou um gabinete de crise. Foi um período em que trabalhamos praticamente em tempo integral. Nessas horas, não há separação entre dia útil e fim de semana: a natureza pede resposta imediata.
É uma experiência intensa, porque envolve coordenação com diversos órgãos, articulação política e técnica, e, sobretudo, agilidade. Felizmente, em 2024 e 2025 tivemos um cenário menos grave, mas ainda assim desafiador. O clima é cada vez mais imprevisível, e precisamos estar prontos para agir em qualquer momento.
Quais resultados a fiscalização entrega diretamente para a sociedade?
Muitas vezes, a sociedade não percebe o alcance do nosso trabalho. Em média, processamos cerca de 20 mil autos de infração ambiental por ano. Metade desses casos é resolvida por meio de conciliação, o que resulta em recuperação de áreas, compensações ambientais e até mudanças concretas em práticas empresariais.
Nosso trabalho é silencioso em muitos aspectos, mas os frutos aparecem no ar que respiramos, na água que chega às torneiras, na sombra das árvores que resistem ao tempo.
Você mencionou a reestruturação administrativa. O que mudou mais desde sua chegada à secretaria?
Quando entrei, a secretaria ainda tinha uma estrutura mais restrita. Com o tempo, ela se expandiu, ganhou subsecretarias, áreas técnicas e uma robustez que hoje permite enfrentar problemas complexos de forma integrada.
Na fiscalização, vivemos diferentes arranjos. Em alguns momentos estivemos ligados à biodiversidade, o que diluía um pouco o foco. Agora, após a reforma de 2025, voltamos a ter uma diretoria dedicada exclusivamente à fiscalização ambiental. Isso, para mim, significa trabalhar com mais clareza, com objetivos definidos e com a possibilidade de entregar resultados mais consistentes.
Houve algum episódio marcante ao longo da sua trajetória?
Um dos mais marcantes foi minha participação em um encontro internacional de fiscalização ambiental. Estavam presentes representantes de todos os estados brasileiros e de vários países. Foi uma oportunidade de perceber que, embora os cenários mudem, os desafios se repetem: desmatamento, queimadas, crimes contra a fauna.
O aprendizado foi imenso. Vi que não estamos sozinhos nessa luta e que, assim como aprendemos com os outros, também temos experiências relevantes a compartilhar. Para mim, foi um momento de pertencimento.
E fora do trabalho, o que você gosta de fazer?
Sou contramestre de capoeira angola, prática que me acompanha há quase 30 anos. A capoeira é, para mim, mais do que um esporte: é cultura, é resistência, é disciplina e coletividade. Ela me ensina diariamente sobre equilíbrio, sobre resiliência, sobre saber o momento certo de atacar e o momento certo de recuar.
De certa forma, carrego a capoeira também para o meu trabalho. A fiscalização exige essa mesma sabedoria: saber quando agir com firmeza, quando dialogar, quando esperar. A roda de capoeira é, de alguma forma, uma metáfora para a vida e para a função que exerço.
O que mais motiva você a continuar na fiscalização ambiental?
O que me motiva é a certeza de que cada ação tem um impacto real. Quando evitamos que uma mata seja devastada, quando conseguimos recuperar uma área degradada ou responsabilizar alguém por um crime ambiental, estamos escrevendo uma história de preservação que ficará para as próximas gerações.