Com estratégia e sensibilidade, ela faz parte da construção de políticas de bem-estar animal
Na Semil, o cuidado com os animais vai muito além das ações visíveis, como clínicas veterinárias e campanhas de castração. Por trás dessas entregas, existe um trabalho técnico e estratégico que organiza prioridades, estrutura programas e conecta diferentes atores para que as políticas públicas cheguem, de fato, à população.
É nesse cenário que atua Karen Camargo, responsável pela coordenação do planejamento estratégico e operacional de programas estaduais de bem-estar animal. Sua rotina envolve desde a definição de indicadores e fluxos de decisão até a articulação com municípios, parlamentares e instituições parceiras.
Em um trabalho que exige visão sistêmica, capacidade de diálogo e foco em resultados, Karen acompanha de perto os desafios de transformar diretrizes em ações concretas – sempre com o objetivo de gerar valor público e ampliar o alcance das políticas de proteção animal.
Nesta entrevista, ela fala sobre os bastidores dessa atuação, os desafios da gestão e o que a motiva a seguir trabalhando pela causa.
Curta Semil: Como você explicaria o seu trabalho para alguém que não conhece a área de planejamento dentro do bem-estar animal?
Karen Camargo: Eu diria que o meu trabalho é, antes de tudo, um esforço de organização do cuidado. Um cuidado que o Estado escolhe oferecer aos animais, especialmente cães e gatos, e que precisa ganhar forma, direção e permanência.
Esse cuidado se manifesta em ações concretas: campanhas de castração, vacinação, microchipagem, a criação de clínicas e consultórios veterinários que acolhem, gratuitamente, quem muitas vezes não teria outra alternativa. São políticas que, à primeira vista, podem parecer pontuais, mas que, na verdade, se conectam como peças de um mesmo desenho.
Quando um animal é castrado, por exemplo, não é apenas um procedimento isolado; é um gesto que reverbera. Ele ajuda a conter o crescimento desordenado da população, reduz o abandono, suaviza uma cadeia de problemas que afeta tanto os animais quanto as cidades. E, no fim, tudo converge para algo maior, quase silencioso: a construção de uma vida mais digna, mais equilibrada – para eles e para nós.
Trabalhar com essa temática mudou sua forma de ver o meio ambiente e a sociedade?
Sem dúvida. Você passa a ter um olhar mais atento para as relações entre as pessoas, os animais e o território. Percebe como essas questões estão interligadas e como políticas bem estruturadas podem fazer diferença no dia a dia. Também reforça a importância da conscientização e da participação da sociedade.
E quando olhamos para fora, para os municípios, essa política ganha outras camadas. A Diretoria de Bem-Estar Animal mantém uma relação próxima com as prefeituras para que as ações avancem. Como se constrói esse diálogo? Onde estão os maiores desafios?
O trabalho com os municípios é, talvez, onde tudo se torna mais real e mais complexo. O Estado não atua sozinho; ele apoia, orienta, compartilha caminhos. Às vezes com recursos, outras vezes com conhecimento, mas sempre com a intenção de caminhar junto.
E caminhar junto, nesse caso, significa lidar com uma diversidade imensa. São cidades com ritmos, tamanhos e urgências muito diferentes entre si. Há municípios que ainda não conseguem sequer mensurar a própria realidade, não sabem quantos animais vivem nas ruas, quantos já foram atendidos, quais são suas maiores lacunas.
Então, nosso papel começa pela escuta. É preciso se aproximar, compreender, quase traduzir essas necessidades. E, a partir daí, construir soluções possíveis, adaptadas àquilo que cada lugar pode sustentar.
Na sua percepção, como profissional e como alguém envolvida com a causa, o que tem dado certo?
O acesso. Sem dúvida, o acesso. Hoje, ver consultórios sendo instalados em diferentes regiões, clínicas começando a funcionar é perceber uma mudança concreta na vida das pessoas. Estamos falando de um serviço que, historicamente, sempre foi caro, distante de grande parte da população.
E quando esse cuidado se torna possível, quando alguém consegue levar seu animal para ser atendido sem precisar escolher entre isso e outras necessidades básicas, algo muda. Não é apenas sobre saúde animal – é sobre dignidade, sobre vínculo, sobre pertencimento. E isso tem um impacto profundo, ainda que nem sempre mensurável em números.
O que te move a permanecer no setor público, construindo esse tipo de política?
A materialidade do impacto. O momento em que aquilo que era planejamento ganha rosto, voz, história. Quando participamos da entrega de uma clínica, de um consultório, e vemos as pessoas chegando, agradecendo, contando o que aquilo representa – é impossível não se afetar. Existe uma dimensão muito humana nesse retorno, algo que escapa aos relatórios, mas que sustenta o trabalho.
É quando você percebe que aquilo que foi pensado, discutido, estruturado, de fato chegou. E chegou fazendo diferença. Isso emociona – e, de certa forma, orienta tudo o que vem depois.
E antes de tudo isso, houve um começo. Como o setor público entrou na sua vida?
De maneira quase silenciosa. Eu sou bióloga; minha trajetória começou na área da saúde, dentro de laboratórios, trabalhando com análises clínicas por muitos anos.
Mas houve um momento de inflexão – uma vontade de sair daquele espaço mais fechado, de entender outras formas de atuação. Foi quando surgiu a oportunidade de um contrato temporário na Secretaria da Saúde. Não era definitivo, não era um plano estruturado. Era, talvez, uma abertura.
E essa abertura acabou se transformando em caminho. Vieram outros convites, outras funções, até que, com a criação da área voltada à saúde animal, eu fui chamada a integrar esse novo espaço. E ali algo fez sentido de forma imediata. Porque, no fundo, essa escolha já estava em mim há muito tempo.
Esse vínculo com os animais vem de onde?
Desde sempre. Foi, inclusive, o que me levou à biologia. Havia, na infância, uma ideia quase romântica de trabalhar com animais silvestres – um sonho comum, eu diria. Mas a vida tem suas próprias rotas. E, de alguma forma, fui conduzida até os cães e gatos. Hoje, olho para isso e entendo que não houve perda – apenas transformação. O afeto permaneceu, só mudou de forma.
E na sua vida cotidiana, fora do trabalho, o que te faz bem?
A simplicidade. A casa, a família, o tempo desacelerado. Gosto de estar com meu marido, com meus dois cães, compartilhando pequenos rituais – um filme, uma taça de vinho, o silêncio confortável de quem não precisa de muito. E gosto de viajar. Recentemente, voltei a um lugar que guardava desde a infância: uma fazenda no interior do Rio Grande do Sul, onde minha família se reunia todos os anos.
Foi uma viagem diferente. Não apenas geográfica, mas afetiva. Muitas das pessoas que preenchiam aquele espaço já não estão mais aqui. E, ainda assim, havia algo ali, uma memória viva, quase palpável.
Levar meu marido, que nunca tinha visto aquele cenário, foi como entrelaçar tempos distintos. O passado e o presente, por alguns dias, no mesmo lugar. E isso, de alguma forma, também nos reconstrói.
Como você mencionou, os animais também fazem parte da sua vida pessoal – você tem pets?
Tenho, sim. O Pepe e a Chiara, dois vira-latinhas que chegaram à minha vida de formas diferentes, mas igualmente especiais. Um deles eu resgatei das ruas; o outro, encontrei por meio de adoção. Hoje, são mais do que companhia — são parte da minha história, do meu cotidiano e, de certa forma, daquilo que também me move no trabalho.