Servidor de carreira desde 2009, André Simas detalha sua jornada, os desafios dos resíduos sólidos e a visão para os próximos anos da política ambiental

Algumas pessoas descobrem sua vocação passo a passo, navegando pelas oportunidades que a vida oferece. Outras a reconhecem cedo, ainda na juventude, e seguem por esse caminho com clareza e determinação. André Simas é daqueles que encontrou cedo o seu norte.

Biólogo de formação e servidor de carreira, ele hoje comanda a Diretoria de Resíduos Sólidos da Semil. Ao longo de mais de 15 anos de serviço público, construiu uma trajetória sólida, alicerçada em entrega incansável, persistência e uma convicção profunda: a de que políticas ambientais bem executadas têm o poder de transformar vidas.

Nesta entrevista, André compartilha sua jornada, reflete sobre os desafios complexos da gestão ambiental e projeta o futuro dos resíduos sólidos. Acima de tudo, revela o que continua a alimentar sua crença – firme e inspiradora – de que transformar realidades não só é possível, como é o trabalho mais importante a ser feito.

Curta Semil: Como é, na prática, sua rotina na Diretoria de Resíduos Sólidos?

André Simas: É uma rotina intensa e, antes de tudo, imprevisível. Coordenamos hoje 17 frentes de trabalho simultâneas, o que faz com que cada dia seja completamente diferente do anterior. Temos momentos de imersão em planejamento estratégico, discutindo rotas tecnológicas e modelagens de viabilidade, e outros em que atendemos demandas urgentes de municípios que precisam de orientação imediata.

É um ambiente que exige concentração profunda e flexibilidade constante. Existe horário para começar, mas, sinceramente, não existe um para terminar. Os desafios não se encaixam em planilhas ou agendas rígidas — e é justamente isso que me motiva. Gosto da sensação de movimento, de saber que há sempre algo novo e que nosso trabalho tem um impacto direto e visível na ponta, nos municípios. É uma demanda grande, mas é isso que torna o trabalho vivo e significativo.

Você está na Secretaria desde 2009. Como foi construir essa trajetória até chegar à diretoria?

Foi um processo orgânico, mas construído com muita dedicação. Entrei na então Coordenadoria de Recursos Hídricos, no Comitê do Alto Tietê, e aquela experiência foi fundamental para entender a escala e a complexidade da gestão ambiental em São Paulo.

O grande divisor de águas foi em 2011, quando migrei para o planejamento ambiental e tive meu primeiro contato com os resíduos sólidos — justamente quando a Política Nacional estava sendo implantada. Era um campo novo, cheio de demandas por estruturação e articulação. Mergulhei de cabeça: ajudei a criar um grupo de trabalho interno e desde então não saí mais da área.

Ao longo dos anos, coordenei os Planos Estaduais de Resíduos Sólidos de 2014 e 2020, trabalhei com logística reversa, articulação com catadores, consórcios públicos e municípios de todos os portes. Passei dois anos à frente do Programa Município VerdeAzul. Cada etapa foi construindo o repertório necessário para a função que ocupo hoje.

Quando a Semil passou por sua reestruturação e criou esta Diretoria, fui convidado pelo Cristiano Kenji para assumir a liderança. Foi uma transição natural, fruto do trabalho acumulado e da confiança construída ao longo do caminho. Sinto que cada experiência foi preparando a seguinte.

Quando nasceu seu interesse pela área ambiental e, especialmente, pelos resíduos sólidos?

O interesse pelo ambiental veio cedo, na faculdade de Biologia. Escolher esse curso não foi acidental; sempre tive um olhar voltado para as questões socioambientais e uma clara intenção de atuar no setor público. Quando o concurso da Secretaria abriu, em 2008, vi a oportunidade que buscava e me dediquei integralmente. Passei, e ali começou uma vivência que transformou minha trajetória.

O foco nos resíduos sólidos surgiu com a Política Nacional de 2010. Era um campo novo, cheio de desafios de implementação, e em 2011 ajudamos a criar um grupo de trabalho para enfrentá-los. Encontrei ali uma área que reunia tudo o que eu valorizava: complexidade técnica, impacto social direto, articulação institucional e, sobretudo, um potencial real de transformação.

Resíduos dialogam com tudo – desigualdade, saúde, infraestrutura, economia. É uma pauta que atravessa a vida das pessoas diariamente.

São muitos municípios, muitas realidades. Como é lidar com essa diversidade?

É desafiador e, ao mesmo tempo, a parte mais enriquecedora do trabalho. São Paulo é um mosaico. Temos desde municípios com estruturas técnicas robustas até outros em que a equipe ambiental é mínima. Não existe uma solução única.

Nosso papel é justamente entender essas particularidades e atuar com sensibilidade. Significa ouvir, compreender as limitações locais, adaptar metodologias e propor caminhos viáveis – nunca impor modelos prontos que desconhecem a realidade do território. Esse respeito à diversidade é a base de qualquer política pública efetiva.

E olhando para o futuro, quais temas ambientais devem ganhar ainda mais relevância?

Vivemos um momento em que a pauta ambiental sai do nicho técnico e passa ao centro do debate social. Nos resíduos, a demanda por modernização tecnológica, gestão integrada e regionalização só vai crescer.

O saneamento básico segue como agenda estruturante, fundamental para a qualidade de vida. E as mudanças climáticas hoje permeiam tudo — do planejamento urbano à preparação para eventos extremos. Biodiversidade e fiscalização também ganharão sofisticação e urgência.

São temas multidimensionals que precisam avançar juntos. E a Semil tem uma responsabilidade grande nesse processo.

Que conselho você daria a quem sonha em construir carreira no serviço público ambiental?

Primeiro, ter clareza do porquê. O serviço público exige entrega, paciência e, acima de tudo, vocação. Só faz sentido se houver identificação genuína com a causa.

Segundo, preparação. Concursos são raros – para o meu cargo, por exemplo, só houve um, em 2008. É preciso estudar, especializar-se e cultivar curiosidade intelectual para aproveitar as oportunidades quando surgirem.

Por fim, acreditar que vale a pena. Eu sempre quis trabalhar aqui, na área ambiental. Foquei nisso e construí minha trajetória com coerência. O serviço público tem um poder transformador único – para quem serve e para quem é servido.

O que te inspira a continuar depois de tantos anos?

Sem dúvida, as pessoas. Antes da Semil, trabalhei no terceiro setor, com ONGs e movimentos sociais – experiências valiosas, mas que não se comparam ao nível de engajamento que encontro aqui. Os servidores desta Secretaria vestem a camisa. Acreditam profundamente no que fazem e se dedicam com uma intensidade que contagia.

É inspirador estar ao lado de quem busca, genuinamente, melhorar a vida das pessoas e promover mudanças reais. Nos dias difíceis – que existem – é essa dedicação coletiva que me motiva. O senso de propósito compartilhado é o maior combustível.

E fora do trabalho – como você descarrega energia?

Hoje, minha principal fonte de energia (e também de cansaço!) é minha filha de três anos. Cuidar dela é meu maior hobby e minha forma de desconectar. A paternidade transforma prioridades, ritmos e a maneira de ver a vida. Antes disso, a fotografia ocupava um espaço central. Minha esposa e eu fizemos faculdade juntos, participamos de coletivos e exposições. Ainda é uma paixão que me conecta com a observação e a sensibilidade, mesmo que hoje a prática seja mais esporádica. Continua sendo parte da minha identidade.

Para fechar: qual inovação tem potencial de transformar a gestão de resíduos em São Paulo?

O Integra Resíduos é, hoje, a iniciativa mais promissora. Ele traz uma visão estruturada de regionalização, articula novas rotas tecnológicas e constrói estudos de viabilidade robustos para atrair investimentos em destinação final moderna. É um programa que nasce com escala, mas ainda tem muito para crescer. Seu potencial de expansão é enorme – pode e deve alcançar todo o estado. O mais importante: ele aposta na continuidade. Políticas de resíduos não podem ser fragmentadas; precisam ser consistentes e duradouras. O Integra Resíduos caminha exatamente nessa direção.