Patrícia Locosque detalha como a integração entre ciência, gestão pública e atuação territorial fortalece a proteção ambiental em São Paulo

A proteção da biodiversidade paulista passa, cada vez mais, por decisões técnicas, investimento público e capacidade de articulação. Dentro da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia (DBB) tem assumido papel central nesse desafio, reunindo políticas de fauna, flora, restauração ecológica e inovação científica sob uma mesma estrutura.

Criada a partir da recente reestruturação administrativa, a DBB integra áreas historicamente estratégicas para o Estado de São Paulo, conectando conservação ambiental, pesquisa aplicada e gestão pública. A diretoria reúne hoje a maior estrutura da Subsecretaria de Meio Ambiente, com atuação descentralizada, presença regional e equipes técnicas especializadas.

À frente da DBB está a bióloga Patrícia Locosque, no Estado desde 2011, com trajetória marcada pela pesquisa científica e pela gestão de grandes equipes. Ao longo de sua carreira, Patrícia participou da consolidação de políticas públicas voltadas à fauna silvestre e à biotecnologia ambiental, sempre com foco na aplicação prática do conhecimento científico.

Nesta entrevista, Patrícia fala sobre sua trajetória profissional, os desafios da gestão ambiental, a importância do investimento público na conservação da biodiversidade e os principais projetos em andamento na DBB, que fortalecem a atuação da Semil em todo o território paulista.

Curta Semil: Como começou sua trajetória no serviço público e sua chegada à Semil?

Patrícia Locosque: Minha trajetória no serviço público começa formalmente em 2011, mas meu vínculo com instituições públicas e com a missão ambiental vem de antes. Atuei como diretora técnico-científica da Fundação Parque Zoológico de São Paulo em um período de grande complexidade institucional, em que o zoológico acumulava não apenas funções de visitação, mas também pesquisa, conservação e atendimento à fauna silvestre. Com o processo de concessão do zoológico e a extinção da fundação, o Estado precisou reorganizar essas atribuições para garantir que políticas essenciais não fossem interrompidas.

Nesse contexto, foi criada a Coordenadoria de Fauna Silvestre, que reuniu atividades antes dispersas entre a antiga fundação e o então Departamento de Fauna e Operações Ambientais (DEFAU). Assumi a coordenação com o desafio de integrar equipes, padronizar procedimentos e manter a qualidade técnica dos serviços. Ao longo dos anos, participei ativamente de diferentes processos de reestruturação administrativa, que culminaram na criação da Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia. Hoje, essa diretoria representa uma evolução institucional importante, ao integrar fauna, flora, restauração ecológica e biotecnologia sob uma mesma estratégia, fortalecendo a atuação da Semil em todo o Estado.

Sua formação é fortemente ligada à ciência. Como isso influencia sua atuação na gestão pública?

A ciência é a base de todas as minhas decisões. Sou bióloga, com mestrado, doutorado e quatro pós-doutorados, sempre voltados à biotecnologia e ao meio ambiente, e essa trajetória acadêmica moldou profundamente a forma como enxergo a gestão pública. A formação científica traz rigor metodológico, capacidade analítica e, sobretudo, responsabilidade com a evidência.

Na prática, isso significa tomar decisões embasadas em dados, estudos técnicos e avaliações de risco, especialmente em uma área tão sensível quanto a ambiental. Além disso, essa formação facilita o diálogo com universidades, institutos de pesquisa, pesquisadores e organismos científicos, criando pontes entre o conhecimento acadêmico e a formulação de políticas públicas. Acredito que a ciência não pode ficar restrita aos laboratórios: ela precisa ser traduzida em políticas, normas, programas e ações concretas que cheguem ao território e gerem benefícios reais para a sociedade.

Quais são os principais desafios da DBB hoje?

Os desafios são múltiplos e contínuos. A DBB atua em uma área que não permite previsibilidade: a fauna silvestre, por exemplo, exige respostas rápidas a ocorrências como resgates de animais, atropelamentos, incêndios florestais, desastres ambientais e situações envolvendo tráfico de fauna. São demandas que surgem diariamente e exigem coordenação técnica, logística e institucional.

Além disso, a DBB é hoje a maior diretoria da Subsecretaria de Meio Ambiente, reunindo mais de 200 profissionais entre servidores e equipes terceirizadas, distribuídos em diferentes regiões do Estado. Gerir essa estrutura envolve desafios relacionados à gestão de pessoas, contratos, orçamento, infraestrutura e capacitação contínua. Outro ponto central é garantir que todas essas frentes atuem de forma integrada, mantendo coerência técnica e alinhamento estratégico com as diretrizes da Semil e do Governo do Estado.

Quais conquistas recentes você destacaria?

As conquistas são sempre resultado do trabalho coletivo das equipes e do esforço institucional. Um marco importante foi a entrada em operação do Cetras de Registro, no Vale do Ribeira. Essa unidade estava com a obra paralisada havia mais de uma década, representando uma lacuna significativa no atendimento à fauna em uma região ambientalmente estratégica. Nesta gestão, conseguimos concluir a obra, equipar o centro, estruturar equipes e colocá-lo em funcionamento, ampliando a capacidade de resgate, triagem e reabilitação de animais silvestres.

Outro avanço relevante foi a atualização da Lista de Espécies Ameaçadas do Estado de São Paulo, que não era revisada desde 2018. Esse trabalho é fundamental para orientar políticas de conservação, licenciamento ambiental e ações de proteção da biodiversidade. Também avançamos na ampliação e no fortalecimento da rede de centros de triagem e reabilitação, garantindo maior capilaridade e melhor resposta às ocorrências em diferentes regiões do Estado.

A DBB também atua como instituição científica. Como essa dimensão se integra ao trabalho da Semil?

A DBB é reconhecida como uma Instituição Científica e Tecnológica do Estado de São Paulo, o que representa um diferencial importante dentro da estrutura da Semil. Isso significa que, além da gestão e da execução de políticas públicas, atuamos diretamente na produção de conhecimento científico e tecnológico.

Mantemos laboratórios, programas de pós-graduação, parcerias com universidades e projetos de pesquisa aplicada. Essa atuação permite que a secretaria não seja apenas usuária do conhecimento científico, mas também produtora de soluções inovadoras para desafios ambientais complexos, como conservação da biodiversidade, recuperação de áreas degradadas e manejo da fauna silvestre.

 Quais são os principais focos da diretoria para este ano?

A restauração ecológica é uma das prioridades centrais da diretoria. Estamos intensificando o diálogo com organizações da sociedade civil, empresas, instituições de pesquisa e atores que atuam diretamente no território, para entender onde estão os principais gargalos e como o Estado pode induzir, apoiar e qualificar essas ações. O objetivo é tornar a restauração mais eficiente, estratégica e alinhada às necessidades regionais.

Outro foco importante é a ampliação e a regionalização dos centros de triagem de fauna, garantindo que o atendimento seja mais próximo das áreas de ocorrência e reduzindo o tempo de resposta. Também estamos investindo no fortalecimento dos Cetras-Escola, em parceria com universidades, integrando atendimento à fauna, formação acadêmica e produção de conhecimento científico, criando um ciclo virtuoso entre prática e ensino.

Como você lida com a intensidade da rotina de trabalho?

A rotina é intensa e exige dedicação integral. Durante o expediente, praticamente não há pausas: são reuniões, decisões técnicas, demandas emergenciais e articulações institucionais constantes. É um ritmo dinâmico e desafiador, que exige atenção permanente — e que, pessoalmente, me motiva bastante.

Fora do trabalho, procuro criar espaços de desconexão. A leitura sempre foi uma companheira importante, assim como as viagens, quando possível. Esses momentos são fundamentais para recuperar energia, manter o equilíbrio emocional e voltar ao trabalho com mais clareza e disposição.

Qual lembrança da infância você guarda com mais carinho?

O nascimento da minha irmã caçula é, sem dúvida, a lembrança mais preciosa da minha infância. Eu ainda era criança, mas me recordo da sensação de expectativa, da curiosidade e, principalmente, da emoção quando a vi pela primeira vez. Foi como se eu tivesse recebido o maior presente da vida. Com o tempo, percebi que aquele momento marcou o início de uma das relações mais importantes da minha trajetória. Crescemos juntas, compartilhando segredos, aprendizados, medos e sonhos. Enfrentamos fases diferentes da vida sempre com a certeza de que podíamos contar uma com a outra. Descobri muito cedo o significado de parceria, cumplicidade e amor incondicional. Até hoje seguimos unidas, não apenas como irmãs, mas como melhores amigas — e essa conexão é uma das maiores riquezas que carrego.

Teve algum momento da vida que influenciou sua escolha profissional, mesmo que indiretamente?

Desde muito pequena eu já demonstrava uma curiosidade quase inquieta sobre como as coisas funcionavam. Por volta dos 9 ou 10 anos, dizia com convicção que queria trabalhar de jaleco e luvas em um laboratório — mesmo sem saber exatamente qual era o nome daquela profissão. O que me encantava era a ideia de descobrir, pesquisar, entender os mistérios da vida. Sempre me fascinou a possibilidade de fazer perguntas e buscar respostas. Na escola, as disciplinas ligadas à ciência despertavam ainda mais esse interesse. Quando chegou o momento de escolher uma profissão, a Biologia surgiu de forma muito natural, quase como a continuidade de um sonho de infância. Nunca tive grandes dúvidas sobre o caminho a seguir. Segui estudando, me especializando, mergulhando cada vez mais no universo científico. Desde 1997 atuo na área, e olhar para trás é perceber que aquela menina que sonhava com o jaleco realmente encontrou seu lugar no mundo.

Uma viagem ou experiência que mudou sua forma de ver o mundo?

Viajar é, sem dúvida, o meu hobby favorito e uma das experiências mais transformadoras da minha vida. Já tive a oportunidade de conhecer muitos lugares, tanto no Brasil quanto no exterior, e cada viagem trouxe aprendizados únicos. Tenho meus cantinhos preferidos, destinos que tocam o coração de forma especial, mas acredito que toda viagem carrega algo de extraordinário. Estar em contato com novas culturas, ouvir outros idiomas, experimentar sabores diferentes e observar distintas formas de viver amplia nossa visão de mundo. Viajar nos ensina tolerância, respeito e empatia. Faz com que a gente perceba que não existe apenas uma maneira “certa” de viver, mas múltiplas possibilidades igualmente válidas. Cada experiência fora da rotina me fez voltar diferente — mais aberta, mais curiosa e mais grata pela diversidade que existe ao nosso redor.

Um conselho que recebeu e nunca esqueceu?

O conselho que meus pais sempre me deram ecoa até hoje como um guia silencioso: “Siga nesse caminho, estude muito e construa uma carreira que você ame.” Eles sempre reforçaram que o conhecimento é algo que ninguém pode nos tirar e que a dedicação abre portas ao longo da vida. Mais do que falar sobre sucesso ou reconhecimento, eles me ensinaram sobre realização. Disseram que, quando fazemos o que gostamos com comprometimento e ética, os resultados são consequência. Esse ensinamento moldou minha postura diante dos desafios, me incentivou a persistir nos momentos difíceis e a nunca abrir mão dos meus valores. Carrego esse conselho como uma bússola, que orienta minhas decisões pessoais e profissionais até hoje.

O que te motiva a continuar nesse caminho?

O que me motiva é ver resultados concretos. Ver um projeto sair do papel, superar entraves administrativos, técnicos e orçamentários e se transformar em uma política pública efetiva é extremamente gratificante. Mais do que isso, é perceber o engajamento das equipes, a construção coletiva e o impacto real dessas ações na proteção da biodiversidade e na qualidade ambiental do Estado.

Trabalhar com meio ambiente é trabalhar com o futuro, e saber que cada esforço contribui para a preservação da fauna, da flora e dos ecossistemas paulistas dá sentido a toda a trajetória e reforça o compromisso de seguir nesse caminho.