Guardiã da fauna: Isabella Saraiva conta os bastidores da proteção dos animais silvestres em São Paulo
Na Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), uma equipe técnica atua diariamente para garantir o bem-estar de animais retirados do tráfico, vítimas de maus-tratos ou que, por diferentes razões, acabam sendo afastados de seus habitats. À frente dessa missão está Isabella Saraiva, bióloga, servidora pública desde 2009 e atualmente coordenadora de Gestão de Fauna Silvestre da diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia.
Com sua equipe, Isabella acompanha de perto a operação de centros de triagem, criadouros, zoológicos e outros empreendimentos de fauna, além de dialogar com a sociedade civil sobre o impacto do tráfico de animais e os caminhos para a convivência harmônica entre humanos e natureza.
Como começou sua trajetória na Semil?
Minha entrada foi em 2009, por concurso público. Sou bióloga de formação e, logo que comecei, fui lotada na área de fiscalização ambiental, lidando diretamente com autos de infração. Era um trabalho mais duro, técnico, com bastante papelada e embates jurídicos. Com o tempo, migrei para uma área mais voltada à biodiversidade, ligada a projetos positivos – foi quando comecei a me aproximar mais da agenda da fauna silvestre. Em 2014, entrei oficialmente no então Departamento de Fauna Silvestre, que na época ainda não era uma coordenadoria. Comecei cuidando da destinação de animais, em especial dos centros de triagem e das áreas de soltura. Desde então, venho acompanhando de perto toda a evolução da área até assumir a coordenação, em meio à reestruturação.
E como é a sua rotina hoje, à frente da Coordenadoria?
É uma rotina bem intensa, desafiadora e, ao mesmo tempo, muito gratificante. Somos responsáveis pela gestão dos empreendimentos de fauna silvestre no Estado, o que envolve desde o licenciamento e fiscalização de zoológicos, criadores científicos e centros de triagem até o acompanhamento do bem-estar animal. Também trabalhamos com as autorizações para manejo, transporte e soltura de espécies, além de lidar com conflitos entre fauna e população – cada vez mais frequentes nas áreas urbanas. Há um componente de articulação muito forte: falamos com outras secretarias, com o Ministério Público, com ONGs, com instituições de pesquisa, com a população. E tudo isso acontece em paralelo ao atendimento cotidiano de demandas, denúncias e emergências. É um trabalho de bastidor que impacta diretamente a vida de muitos animais.
Na sua visão, qual é hoje o maior desafio para o bem-estar dos animais silvestres?
O maior desafio é, sem dúvida, a conscientização. As pessoas estão cada vez mais envolvidas com o bem-estar de pets – cães e gatos, sobretudo -, mas ainda existe um desconhecimento enorme sobre o que é um animal silvestre, sobre o que significa adquirir um animal ilegalmente. Muita gente não sabe que está cometendo uma infração ambiental quando compra um papagaio numa feira informal, por exemplo. Essa falta de informação fomenta o tráfico de animais, um mercado bilionário e cruel. Precisamos levar essa discussão para as escolas, para os bairros, para dentro das casas. Quando a sociedade entende que cada animal retirado da natureza causa um desequilíbrio ecológico, começa a agir de forma mais responsável.
Quais são as consequências mais prejudiciais ao adquirir um animal oriundo do tráfico?
A consequência mais grave é o fortalecimento de um mercado criminoso – o tráfico de fauna silvestre é o terceiro maior do mundo, atrás apenas do tráfico de armas e drogas. Além disso, mesmo animais que não estão ameaçados de extinção cumprem um papel ecológico fundamental. Ao serem retirados da natureza, desencadeiam um efeito dominó que prejudica o equilíbrio de todo o ecossistema. É um impacto silencioso, mas devastador. Sem contar o sofrimento individual desses animais: muitos morrem no transporte, em condições insalubres, ou passam a vida em cativeiros sem os cuidados mínimos.
Você percebe alguma evolução nesse cenário nos últimos anos?
Sim, e isso me anima bastante. Nos últimos três anos, principalmente, a fauna silvestre ganhou mais visibilidade na mídia e na estrutura das instituições ambientais. Hoje, a Semil tem uma coordenadoria específica para fauna, o que mostra um reconhecimento maior da importância desse trabalho. Além disso, percebo que o público está mais informado. As dúvidas que recebemos já vêm mais elaboradas. Antes, as pessoas perguntavam simplesmente se podiam ter um animal. Agora, querem saber sobre origem, documentação, legalidade. É uma mudança de mentalidade que vem com a informação. E isso reforça o quanto a comunicação é uma aliada nesse processo.
E quem é a Isabella fora do trabalho?
Acima de tudo, sou mãe. Em casa, somos cinco: eu, meu marido e três filhos, de idades bem diferentes – um adolescente, uma criança e uma bebê. Então, convivo com todas as fases da maternidade ao mesmo tempo. Também sou apaixonada por viagens. Sempre que posso, gosto de explorar lugares com natureza, trilhas, praias mais afastadas, fora do roteiro comum. A maternidade mudou minha forma de ver o mundo, me tornou mais sensível e também mais resiliente. Conciliar tudo isso com o trabalho é um desafio, mas também uma motivação.
Teve alguma viagem que ficou marcada na sua memória?
A mais marcante foi a Tailândia, uma experiência transformadora. Conhecemos o norte, mais espiritual e tradicional, com muitos templos budistas, e também as praias do sul, com natureza exuberante. Foi uma imersão em outra cultura, em outros ritmos de vida. Isso abre a cabeça, amplia o olhar para o mundo e até para o nosso papel como seres humanos. Foi antes dos filhos, claro – hoje as viagens são mais curtas e adaptadas, mas sigo cultivando esse desejo de descobrir lugares e histórias novas.
Seus filhos entendem o que seu trabalho?
De certa forma, sim. O mais velho compreende bem e entende que, mesmo que eu não esteja lidando diretamente com os animais no campo, meu trabalho tem um impacto real na vida deles. Os menores ainda estão no processo, mas já dizem com orgulho que a “mamãe trabalha com bicho”. Acho bonito isso. Eles estão crescendo com esse senso de responsabilidade ambiental, e acredito que essa geração já virá com uma mentalidade diferente da nossa.
Em que podemos avançar na área de fauna silvestre em São Paulo?
Acredito que o maior avanço que ainda estamos trabalhando para alcançar é fortalecer o trabalho de base, especialmente nas regiões do interior. Temos unidades regionais da em todo o estado, e é fundamental que nossos técnicos estejam cada vez mais próximos das comunidades, das escolas, da sociedade civil e da academia. Só assim conseguiremos criar soluções específicas para os contextos locais e fortalecer a presença da pauta ambiental em diferentes territórios. A regionalização é uma grande oportunidade de mudança.
Se alguém identificar um caso de tráfico ou maus-tratos, como pode agir?
A orientação é que a denúncia seja feita por meio do site da Semil de forma anônima, se a pessoa preferir. Também recebemos comunicações por e-mail. O importante é não se calar. Qualquer informação pode ajudar a salvar vidas. Quando identificamos algo grave, encaminhamos para a fiscalização, ou mesmo para a Polícia Federal, quando o caso exige.
Algum caso marcou você de forma especial nesses anos de atuação?
Dois episódios me marcaram. Um deles foi em Mairiporã, onde encontramos dezenas de aves exóticas abandonadas por um criador licenciado. O local estava em péssimas condições, e muitos animais não resistiram. Outro caso foi durante os incêndios do ano passado. Recebemos muitos animais queimados, em estado gravíssimo. Muitas vezes, não havia mais nada que pudéssemos fazer, além de aliviar o sofrimento. Esses momentos são dolorosos, mas reforçam a urgência do nosso trabalho. Fauna é emoção o tempo todo – não tem dia igual ao outro. E é isso que me mantém firme nessa missão.