Há profissionais cuja trajetória se confunde com a própria história da área em que atuam. É o caso de Jamil Abukater. Engenheiro civil formado pela PUC-Campinas e servidor público desde 1978, ele atravessou quase meio século acompanhando – e ajudando a construir – a evolução da infraestrutura aeroportuária do Estado de São Paulo.

Sua caminhada começou no antigo Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp), em um período em que a aviação regional ainda dava passos importantes de expansão e modernização. Desde então, Jamil participou de transformações decisivas para o setor, passando por áreas técnicas, operacionais e estratégicas até ocupar funções de liderança.

Ao longo dos anos, viu aeroportos crescerem, redes serem reorganizadas e a aviação paulista assumir um papel cada vez mais relevante para o desenvolvimento econômico e regional do estado.

Discreto, ele define o sucesso do próprio trabalho de forma simples, mas profundamente simbólica: “Não ser notícia é a melhor notícia”. Na aviação, onde cada detalhe importa e qualquer falha pode ter consequências graves, a frase traduz uma vida inteira dedicada à precisão, à responsabilidade e ao cuidado silencioso que mantém tudo funcionando.

Fora dos aeroportos e das torres de controle, Jamil carrega consigo valores familiares herdados de suas origens libanesas, além da paixão antiga pelo futebol – hoje vivida à beira do campo, como treinador do Família Unida Futebol Clube.

Curta Semil: Como começou sua trajetória no serviço público?

Jamil Abukater: Minha trajetória começou em 1978, no antigo Daesp, em um momento em que a aviação regional paulista ainda passava por um processo importante de estruturação e crescimento. Naquela época, tudo era muito diferente: os recursos tecnológicos eram mais limitados, os processos eram mais manuais e a dinâmica do setor exigia um acompanhamento muito próximo de cada operação e de cada obra realizada. Entrei muito jovem no serviço público e fui aprendendo na prática o funcionamento da infraestrutura aeroportuária, convivendo com profissionais extremamente experientes, que acabaram se tornando grandes referências para mim.

Ao longo dos anos, tive a oportunidade de acompanhar diferentes fases da aviação paulista, desde períodos de expansão da rede aeroportuária até momentos de reestruturação administrativa e modernização tecnológica. Passei por áreas técnicas, operacionais e de gestão, sempre ligado diretamente ao funcionamento dos aeroportos e à navegação aérea. Foram décadas de aprendizado constante, porque a aviação é uma área que exige atualização permanente e muita responsabilidade.

Com a criação da Semil, em 2023, houve uma mudança importante na estrutura administrativa do Estado, integrando áreas de infraestrutura, logística e meio ambiente em uma mesma secretaria. Foi uma transição muito significativa, mas ao mesmo tempo natural para quem já vinha atuando há tantos anos no setor. Continuei trabalhando na área aeroportuária, agora dentro de uma nova estrutura, levando toda a experiência acumulada ao longo dessa trajetória.

Qual é o seu principal trabalho desenvolvido hoje na Semil?

Hoje atuo principalmente na gestão operacional e na navegação aérea de aeroportos estratégicos do interior paulista, especialmente Sorocaba e São José do Rio Preto, que possuem uma movimentação muito relevante para a aviação regional e executiva. É um trabalho bastante técnico e que exige acompanhamento permanente, porque envolve diretamente a segurança das operações aeroportuárias.

Minha atuação inclui desde o monitoramento e suporte aos sistemas de navegação aérea até o planejamento operacional dos aeroportos. Também trabalhamos com demandas ligadas à infraestrutura aeroportuária, apoio técnico, avaliação de necessidades operacionais e interlocução com diferentes órgãos ligados à aviação. Existe toda uma estrutura funcionando nos bastidores para garantir que pousos, decolagens e movimentações ocorram com segurança e eficiência.

O que mudou com a transição para a Semil?

Acredito que a mudança para a Semil trouxe uma integração muito positiva entre áreas que antes funcionavam de maneira mais isolada. A secretaria possui uma estrutura moderna, dinâmica e bastante técnica, o que facilita o desenvolvimento dos trabalhos e a troca de conhecimento entre as equipes. Houve também uma receptividade muito boa por parte dos profissionais, o que tornou o processo de adaptação bastante tranquilo.

Percebo que a Semil tem uma visão estratégica importante sobre infraestrutura e logística, buscando integrar diferentes setores e fortalecer os processos internos. Isso acaba refletindo diretamente no dia a dia do trabalho, trazendo mais agilidade, eficiência e capacidade de articulação. Além disso, existe uma valorização muito grande da experiência técnica e do conhecimento acumulado pelos profissionais que atuam na secretaria.

Depois de tantos anos no serviço público, posso dizer que cada mudança administrativa traz desafios, mas também oportunidades de evolução. E vejo que essa transição representou justamente isso: uma oportunidade de modernizar processos, aproximar equipes e fortalecer ainda mais áreas estratégicas para o Estado.

Qual momento marcou mais sua carreira?

Foram muitos momentos importantes ao longo desses quase 50 anos de trajetória, porque tive a oportunidade de acompanhar mudanças históricas na aviação paulista e brasileira. Talvez alguns dos episódios mais marcantes tenham sido as grandes transformações administrativas da rede aeroportuária do Estado. Vivi, por exemplo, o período em que aeroportos estratégicos como Congonhas, Guarulhos e Viracopos passaram para a administração federal, algo que mudou completamente a estrutura da aviação paulista.

Depois disso, houve toda uma reorganização voltada aos aeroportos do interior, que passaram a ter um papel ainda mais relevante no desenvolvimento regional. Mais recentemente, também acompanhei os processos de concessão da rede aeroportuária paulista, outro momento extremamente importante e desafiador. Cada uma dessas etapas exigiu muito planejamento, adaptação e trabalho técnico.

Mas, além dos grandes acontecimentos institucionais, também guardo lembranças muito fortes do cotidiano da profissão: obras importantes, operações complexas, desafios operacionais e decisões que precisavam ser tomadas com rapidez e responsabilidade. A aviação é uma área em que cada dia traz um novo aprendizado; então, acredito que minha carreira foi marcada justamente por essa soma de experiências e transformações.

Qual foi o maior desafio ao longo desses anos?

O maior desafio sempre foi trabalhar em uma área que não permite falhas. A aviação exige um nível de responsabilidade muito grande, porque qualquer erro, por menor que pareça, pode ter consequências extremamente sérias. Isso faz com que o trabalho seja conduzido sempre com muita atenção, rigor técnico e comprometimento.

Ao longo das décadas, enfrentamos mudanças tecnológicas, reestruturações administrativas, crescimento da demanda aeroportuária e transformações importantes no setor aéreo. Cada fase trouxe seus próprios desafios. Houve momentos em que foi necessário modernizar sistemas, adaptar operações e encontrar soluções para manter a eficiência e a segurança das atividades aeroportuárias.

Além disso, existe a responsabilidade constante de tomar decisões técnicas importantes, muitas vezes em situações complexas e que exigem respostas rápidas. Trabalhar com navegação aérea significa lidar diariamente com precisão, planejamento e controle operacional. É um trabalho silencioso, mas extremamente sensível.

E qual é a maior satisfação profissional?

A maior satisfação é olhar para toda essa trajetória e perceber que ela foi construída com responsabilidade, seriedade e segurança. Na aviação, quando tudo funciona corretamente, ninguém percebe o trabalho que existe por trás. E isso, na verdade, é um sinal de que as operações estão acontecendo da maneira como deveriam.

Costumo dizer que, nesse setor, “não ser notícia é a melhor notícia”, porque significa que não houve incidentes, falhas ou problemas graves. Saber que participei durante tantos anos de um trabalho voltado justamente à segurança das operações aéreas é algo que me traz muito orgulho e tranquilidade.

Como você explicaria seu trabalho para quem não conhece a área?

Muita gente imagina que o funcionamento de um aeroporto depende apenas das aeronaves, pilotos e pistas, mas existe toda uma estrutura extremamente complexa operando nos bastidores. Nosso trabalho envolve justamente essa parte técnica e operacional que garante que tudo funcione com segurança e organização.

Atuamos com planejamento da rede aeroportuária, apoio técnico, gestão operacional e navegação aérea. Hoje trabalhamos diretamente com sistemas, torres de controle e estruturas que auxiliam na orientação e segurança das aeronaves durante pousos, decolagens e circulação aérea. É um trabalho que exige monitoramento constante e muita precisão.

É uma atividade muito técnica e, ao mesmo tempo, bastante estratégica para o desenvolvimento regional e econômico do Estado. Muitas cidades dependem diretamente da aviação regional para atrair investimentos, facilitar deslocamentos e fortalecer atividades econômicas. Então, mesmo sendo um trabalho que muitas vezes acontece longe dos holofotes, ele possui uma importância enorme.

O que a Semil representa para você?

A Semil representa um ambiente de trabalho extremamente positivo, técnico e acolhedor. Ao longo da minha carreira, passei por diferentes órgãos, estruturas administrativas e equipes; então, tive a oportunidade de conhecer realidades muito distintas dentro do serviço público. E posso dizer que encontrei na Semil um ambiente muito agradável e colaborativo.

Existe um respeito muito grande pelo conhecimento técnico e pela experiência profissional das pessoas que atuam aqui. Isso faz diferença no dia a dia, porque permite que o trabalho seja desenvolvido de forma mais integrada e produtiva. Além disso, percebo uma preocupação constante em modernizar processos e fortalecer a atuação das áreas técnicas.

O que você leva dessa jornada de quase 50 anos?

Levo principalmente aprendizado, experiência e gratidão. Foram quase cinco décadas convivendo com profissionais extremamente qualificados, participando de projetos importantes e acompanhando transformações históricas da infraestrutura paulista. Isso acaba construindo não apenas uma trajetória profissional, mas também uma visão muito ampla sobre gestão pública e trabalho em equipe.

Aprendi muito ao longo desses anos, tanto tecnicamente quanto no aspecto humano. O serviço público nos coloca diariamente diante de desafios que exigem responsabilidade, equilíbrio e capacidade de adaptação. E acredito que cada experiência vivida contribuiu para minha formação profissional e pessoal.

Também levo amizades, convivências e o sentimento de ter participado de algo maior. Trabalhar na área de infraestrutura aeroportuária significa contribuir diretamente para o desenvolvimento do Estado e para a segurança das pessoas. É uma responsabilidade grande, mas também muito gratificante.

Fora do trabalho, quais são seus hobbies?

Sempre gostei muito de esportes, especialmente futebol, que faz parte da minha vida desde muito cedo. Durante muitos anos, joguei regularmente e participei de diferentes equipes e campeonatos amadores. O futebol sempre foi mais do que um hobby para mim – era também um momento de convivência, amizade e descontração.

Hoje, continuo ligado ao esporte como treinador do Família Unida Futebol Clube, o que me mantém próximo dessa paixão antiga. Gosto muito dessa convivência proporcionada pelo futebol, porque ele cria vínculos, fortalece amizades e traz um espírito coletivo muito importante.

Além disso, também valorizo bastante os momentos em família e o convívio com amigos. Depois de tantos anos em uma área que exige atenção constante e grande responsabilidade, esses momentos acabam sendo fundamentais para manter o equilíbrio e aproveitar a vida de forma mais tranquila.

Seu sobrenome tem origem árabe?

Tem sim. Minha família é descendente de libaneses, e essa história sempre esteve muito presente dentro da nossa casa. Meu avô veio do Líbano para o Brasil em busca de oportunidades e acabou construindo sua vida aqui em São Paulo, assim como muitos outros imigrantes daquela geração.

Existe um sentimento muito forte de respeito e admiração pela trajetória dos nossos antepassados, porque eles enfrentaram muitas dificuldades para recomeçar a vida em outro país. Essa herança cultural acabou sendo transmitida ao longo das gerações, principalmente através dos valores familiares e das tradições.

Cresci ouvindo histórias da família, das origens e da importância da união entre as pessoas. Isso sempre teve um peso muito grande na nossa formação familiar e pessoal.

Você mantém costumes da cultura árabe?

Sim, principalmente na convivência familiar e na valorização da união entre as pessoas. A cultura árabe tem muito forte esse sentimento de acolhimento, proximidade e respeito à família, algo que sempre esteve muito presente na minha criação e que procuro manter até hoje.

A alimentação também é uma forma importante de preservar essa conexão com as nossas origens. Muitos costumes acabam permanecendo justamente nesses encontros familiares, nas tradições e na convivência do dia a dia.

Como você quer ser lembrado pelos colegas?

Gostaria de ser lembrado como alguém que sempre trabalhou com responsabilidade, seriedade e dedicação ao serviço público. Passei praticamente toda a minha vida profissional ligada à aviação paulista e procurei desempenhar meu trabalho da melhor forma possível, sempre com muito comprometimento.

Também espero ser lembrado como uma pessoa acessível, respeitosa e disposta a compartilhar conhecimento. Ao longo de tantos anos, aprendi muito com colegas mais experientes e sempre acreditei na importância dessa troca entre as equipes.