Pesquisadora criou uma tecnologia para as operações em estradas ou madeireiras que aumenta a eficiência na fiscalização e combate à exploração ilegal de recursos naturais

O ano era 1976. Naquela época, Sandra Florsheim trabalhava em um showroom de parelhos eletrônicos da Sony. Com apenas 18 anos, estava decidida a fazer faculdade de engenharia eletrônica. Até que, neste mesmo ano, uma amiga avisou que iria ter um concurso público para o antigo Instituto Florestal, localizado no Horto Florestal, na zona norte da Capital, e que ficava muito perto da casa dela.  

Mesmo despretensiosa, ela fez a prova. Dias se passaram e uma pessoa que trabalhava no Horto Florestal foi até a casa e disse: Você não vai assumir seu cargo não? Hoje é o último dia! 

Sandra havia passado no concurso público para auxiliar de laboratório a assumiu a vaga. Logo que entrou no antigo órgão público, começou a cuidar da xiloteca, que é um acervo botânico composto por diversas amostras de madeira, com informações e imagens sobre as espécies. A paixão pelas madeiras a fez abandonar o sonho de ser engenheira e iniciar uma faculdade de biologia e se especializar em botânica. 

A mudança de curso mudou completamente a vida dela e prestes a se formar ela conheceu seu atual marido, que era professor na instituição de ensino Faculdades Farias Brito, em Guarulhos, na Grande São Paulo, em um relacionamento que já dura 42 anos, e permitiu três filhos e duas netas. 

No IPA, Sandra criou uma tecnologia para as operações em estradas ou madeireiras que aumenta a eficiência na fiscalização e combate à exploração ilegal de recursos naturais. Para auxiliar na fiscalização, criou um equipamento microscópio que era acoplado ao computador, isso em 2007, capaz que saber qual é o tipo pelo desenho e outras características. Inicialmente, participava de todas as operações e fazer o laudo. Com o passar do tempo recebia imagens por e-mail e não precisava mais ir tanto nas operações. Agora faz um treinamento bem elaborado para os próprios policiais identificarem a origem do bioma.  

Curta Semil: Quem é Sandra Florsheim?  

Sandra Florsheim: Bióloga, 68 anos, curiosa, questionadora, casada, mãe de três filhos e avó de duas netas; trabalha na Semil há 48 anos. Mestre em tecnologia de madeira e Doutora em Ciências Florestais pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós/ USP. 

Qual é sua trajetória profissional na Semil?  

Começou como auxiliar de laboratório no Instituto Florestal, começou no setor de madeiras, se apaixonou e se especializou em botânica até se transformar em uma grande Pesquisadora. 

Como era a rotina de trabalho quando começou no Instituto Florestal?  

Inicialmente a minha função era preparar soluções e corantes onde a gente clareava amostras de madeira. Depois a gente esperava o experimento secar. Depois a gente levava para realizar as medições de todos os elementos da anatomia da Madeira. 

Quais foram os momentos mais importantes e transformações que você presenciou nesses quase 50 anos? 

Vários, principalmente no laboratório. Eu fui testemunha de uma grande evolução na microscopia, que é o estudo de objetos muito pequenos, como células, tecidos, microrganismos e partículas através de um microscópio. Antigamente a gente entrava em uma câmara escura e usava um projetor de filme, colocava a lâmina e projetava em uma cartolina para aumentar a imagem. Nós mediamos em centímetros, depois tínhamos que converter em micrômetros. Agora tudo é feito pelo computador, celular, muito mais fácil. Fora a transformação pessoal. A Instituição ajudou muito a formar meu caráter. 

Se a Sandra não fosse Bióloga? 

Seria engenheira eletrônica, pela mesma curiosidade de saber como as coisas funcionam, mas aí seriam pecinhas elétricas. Talvez muita gente iria levar choque (risos). 

Como os colegas de trabalho enxergam a Sandra? 

Uma mulher teimosa (risos), amiga, quer ver dedicação, quer que as pessoas exerçam as funções por paixão e ajudo o máximo que eu posso. 

O que motiva você a continuar no serviço público?  

Sou apaixonada pelo que eu faço. Por isso eu me especializei a vida inteira. Já trabalhei inúmeros fins de semana e não me lembro de pedir hora extra. Fazendo o que você gosta, você nunca vai trabalhar.  

Quais as histórias mais legais durante esses anos todos?  

Tenho muitas histórias legais. Algumas de campo durante estudo das árvores, me distraí e fiquei atolada de lama até a cintura. Mas a que eu mais gosto é que uma vez, em um sábado, eu estava sozinha no laboratório fazendo experimentos com ácidos. Estava toda concentrada. Foi quando um pesquisador chegou quieto, do lado de fora da porta e falou meu nome com voz de fantasma. Eu levei um susto tão grande que o ácido furou minha calça, mas felizmente não me queimei, só perdi estragou da roupa. 

Como foi criada a tecnologia de fiscalização e quando surgiu a ideia? 

Até hoje nós não temos muitos profissionais qualificados para fazer a identificação da madeira em tempo real. Nas fiscalizações junto com a polícia, a gente faz um corte na superfície transversal, e com auxílio de luva e ampliação de imagem em exatamente 10 vezes, é possível fazer essa identificação. Mas eu não podia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Foi então que, uma vez eu fui ao dermatologista e o médico usou um aparelho microscópico para examinar minha pele. Aí eu tive a ideia de comprar esse aparelho e fiz alguns ajustes para que ele ficasse na altura ideal que era necessária para ampliar em 10 vezes a imagem e estar apto para fazer a identificação. Nós conectamos esse aparelho ao computador por volta de 2007. A partir daí nós capacitamos policiais para cortar corretamente a amostra e eu recebia tudo por e-mail na minha sala e fazia os laudos on-line de várias partes do país ao mesmo tempo.  

Como é o dia a dia dela no trabalho? 

Minha rotina continua como pesquisadora especializada em anatomia da madeira. Ainda participo de fiscalizações e dou treinamento para policiais, mas não com a mesma intensidade de antes. Tem também a parte burocrática de relatórios e outros procedimentos que são necessários.  

Quais os impactos da exploração ilegal de madeira? 

São inúmeros! A perda da biodiversidade, às vezes, irreparável. Isso pode causar a extinção de espécies da fauna e flora no bioma. Animais que se alimentam de sementes e fazem a dispersão dessas sementes no solo. Temos que considerar a degradação da floresta, poluição do solo e diminuição dos mananciais.  

Como é a Sandra com a família? 

Ah, eu amo ver minha família reunida dentro de casa. Sou uma ótima cozinheira. Adoro cozinhar vários pratos. Principalmente risoto de camarão. Mas todos elogiam minhas massas e doces também. 

E quais são seus hobbies?  

Amo viajar. Principalmente conhecer outros países. 

Jogo rápido  

  • Livro – Os Sertões, de Euclides da Cunha  
  • Filme – Romeu e Julieta 
  • Passeio – Caminhada em mata  
  • Comida – Risoto de camarão 
  • Sonho – Envelhecer tranquila e com saúde