Liliane Milanelo: 28 anos de amor e trabalho pela vida silvestre
Médica veterinária com 28 anos dedicados à proteção de animais silvestres, Liliane Milanelo, é diretora do Centro de Conservação Integrado que engloba os Centros de Triagem estaduais: SP , Registro e futuramente Presidente Prudente. Coordeno também o Centro de Conservação Integrado da Fauna Silvestre que engloba o Cecfau em Araçoiaba da Serra. coordena desde o resgate de vítimas de tráfico até a reinserção de espécies ameaçadas na natureza. Sua trajetória começou com um estágio voluntário em 1995, transformando-se em uma missão de vida. Ativista, entre seus maiores desafios está combater a mentalidade de que animais silvestres são pets.
Fora do trabalho, Liliane é uma gateira apaixonada por seus quatro felinos resgatados, devora livros históricos e desafia-se nas corridas de rua. Mãe de uma estudante de psicologia, valoriza os domingos em família, onde histórias de bichos se misturam ao riso de parentes.
Sua filosofia é clara: “Cuidar da vida exige persistência, mas cada animal livre é uma vitória da natureza sobre a indiferença humana.”
Curta Semil: Como começou sua trajetória no Cetras?
Liliane Milanelo: Durante meu estágio curricular em 1995, o Cetras passava por uma crise: a empresa terceirizada que administrava o centro teve o contrato encerrado. Fiquei horrorizada ao pensar que os animais ficariam desassistidos. Na época, eu cuidava de filhotes órfãos, auxiliava em tratamentos emergenciais e até ajudava na limpeza das instalações. Por iniciativa própria, estendi meu estágio por mais um mês e, em 1996, fui contratada como veterinária fixa. É irônico: anos antes, minha irmã bióloga me levou para conhecer o Cetras quando eu era criança. Naquela visita, vi filhotes de papagaio sendo cuidados e pensei: ‘Que lugar incrível!’. Hoje, sou responsável por ele.
Qual sua função atual?
Após a reestruturação da Semil, assumi a direção do Centro de Triagem e coordeno o Centro de Conservação de Fauna Integrada, que engloba unidades em Araçoiaba da Serra e Presidente Prudente. Meu trabalho envolve desde a recepção de animais resgatados (vítimas de tráfico, atropelamentos ou orfandade) até a organização de solturas em habitats adequados. Também supervisiono projetos de reprodução em cativeiro para espécies ameaçadas, como araras e micos-leões-pretos.
Como é o dia a dia no Centro de Triagem?
Antes, era mais ‘mão na massa’: alimentava filhotes de tucano, fazia curativos e cirurgias em quati atropelado e até levava os animais para áreas de soltura. Hoje, coordeno uma equipe de 60 pessoas e lido com burocracias, como contratos para exames veterinários, relatórios e parcerias com universidades. Mas ainda participo de casos críticos, como o resgate recente de quatro filhotes de saimiri (macacos da Amazônia) encontrados em um carro vindo do Pará , ainda com cordão umbilical.
Qual o maior desafio em 28 anos de carreira?
Combater a cultura de que animais silvestres são ‘adornos’. Já vi pessoas manterem jaguatiricas em apartamentos e papagaios em gaiolas minúsculas. Participo de palestras em escolas para explicar que esses animais sofrem em cativeiro.
Conte um momento que a marcou profundamente.
Em 2017, durante o surto de febre amarela, recebemos 10 macacos-pregos filhotes em caixas de feira empilhadas. Eles estavam desidratados, caquéticos, com traumas psicológicos por ficarem naquela caixa havia meses. O traficante não conseguiu vendê-los porque as pessoas temiam a doença. Passamos semanas reabilitando-os: hidratação, alimentação com seringa e até ‘aulas’ para subir em árvores. Quando os soltamos em uma reserva, um deles olhou para trás antes de desaparecer na mata. Todos se recuperaram e o comportamento ativo e saudável e com liberdade foi muito gratificante!
E os dias que compensam tudo?
Em 2022, soltamos 400 animais em uma única operação: desde canários da terra até araras. Ver um bicho retomar sua liberdade é indescritível. Recentemente, um casal de araras-canindé, que passou anos em cativeiro, foi solto e meses depois avistamos seus filhotes voando. Isso prova que nosso trabalho vai além do resgate: é sobre reconstruir ecossistemas.
Você é mesmo uma ‘carnavalesca’, como dizem?
O Anderson inventou essa história! (brinca). Saí em bloquinho uma vez na vida, mas odiei a multidão. Prefiro viajar para a praia com meu marido ou levar meus sobrinhos a bloquinhos infantis, onde posso fantasiar de ‘Doutora dos Bichos’ e distribuir adesivos de animais silvestres. Carnaval é caos; eu gosto é de sossego!
O que faz nas horas livres?
Tenho quatro gatos: Sings, Pitu, Mocotó e Docinho. Todos resgatados de situações de abandono. Para relaxar, leio literatura, os contos são os que mais gosto. Como minha casa já parece uma biblioteca, adotei um Kindle, mas confesso: nada substitui o cheiro de livro novo. Recentemente, comecei a correr.
E a família?
Sou casada há 25 anos com um arquiteto que adora fotografar – ele é meu ‘fotógrafo oficial’. Tenho uma filha de 22 anos, Nuria, que estuda psicologia. Brinco que ela vai me analisar um dia! Meus pais, um marceneiro e uma dona de casa, me ensinaram o valor do trabalho coletivo. Aos domingos, nossa família se reúne para almoçar. São 15 pessoas, três cachorros e muita história para contar.
Reflexões e conselhos: O que mudou nos últimos anos na Semil?
Ganhamos reconhecimento como instituição estratégica para a preservação ambiental. Conseguimos verbas para ampliar o centro e contratar especialistas em fauna. Antes, dependíamos contratos muito enxutos para comprar ração; hoje, temos parcerias com universidades para pesquisas genéticas.
Um conselho para quem quer seguir sua área?
Seja resiliente. Você verá animais morrendo, burocracias intermináveis e pessoas que não entendem seu trabalho. Mas também verá filhotes sobrevivendo contra todas as probabilidades e ecossistemas se regenerando. Estude muito – biologia, legislação ambiental, até comunicação para engajar a sociedade. E nunca perca a sensibilidade: por trás de cada bicho, há uma história que merece ser respeitada.