
31/08/2026
A Educação Ambiental não se restringe às ciências naturais. A história, a memória e o patrimônio cultural também ajudam a compreender nossa relação com o meio ambiente.
No senso comum, muitas pessoas associam Educação Ambiental (EA) ao estudo das ciências naturais, mas é importante lembrar que a prática da EA não se restringe a essa área. Segundo a Política Estadual de Educação Ambiental (Lei n° 12.780, de 30 de novembro de 2007), deve-se ter em consideração “a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico, político e cultural, sob o enfoque da sustentabilidade” (grifo nosso).
A mesma Política diz que os objetivos da Educação Ambiental são a melhoria da qualidade de vida e uma relação sustentável da sociedade humana com o ambiente que a integra.
Essas definições mostram que deve ser dado enfoque ao papel da Educação Ambiental na relação do homem com o ambiente que o integra, para além de um olhar voltado apenas para a natureza. Por isso, além de conhecimentos de ciências naturais, são extremamente importantes os de geografia, física, geopolítica, história, além de muitos outros. Esse é um dos motivos pelos quais a orientação é de que, nas escolas, a Educação Ambiental não seja trabalhada como disciplina específica, mas de maneira transversal às diversas áreas de conhecimento.
Onde tem história fora da escola?

Foto do Museu Florestal: Paulo Muzio – IPA.
- Museus: Museu Botânico, Museu do Eucalipto, Museu Geológico, Museu Florestal;
- Patrimônio não musealizado: Parque Estadual da Cantareira – Núcleo Engordador / Casa das Bombas, objetos históricos dispersos nas unidades;
- Patrimônio edificado: Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Caminhos do Mar / Edificações históricas, Parque da Água Branca, Parque da Juventude, entre outros;
- Patrimônio Imaterial: conhecimento das comunidades tradicionais que vivem nas Áreas Protegidas ou no entorno, como caiçaras, quilombolas etc.;
- Memória oral: projetos realizados com as comunidades do entorno de Unidades de Conservação.
Embora cada uma dessas categorias tenha uma apresentação distinta devido à sua forma (seja um museu, um prédio histórico, a memória das pessoas etc.), elas têm em comum a característica de rememorar fatos que dizem respeito ao meio ambiente, tanto do passado, como do presente; e lembrando que “meio ambiente” não diz respeito apenas aos ambientes naturais, como as florestas, mas todo e qualquer local, inclusive as áreas urbanas.
Lugares de Memória
Há um conceito que une todas essas possibilidades: “Lugar de memória”, criado pelo historiador francês Pierre Nora, em 1984. Segundo Nora, podem ser considerados “lugares de memória” um monumento, um museu, um arquivo, um personagem, um símbolo ou qualquer objeto que teve na sua origem uma intenção memorialista.
Ao desenvolver suas atividades, um pesquisador botânico utiliza diversos materiais. Quando determinado instrumento se torna obsoleto, embora não seja mais usado nos laboratórios, pode fazer parte do acervo de um museu, representando a ciência de uma época. Isso é um lugar de memória.
Outro exemplo dessa definição, transcendendo a expectativa de um espaço físico: no dia a dia, comemos arroz com feijão e, por esta prática estar viva em nosso cotidiano, não seria necessário criar um museu para relembrar às pessoas como comer arroz com feijão. Aliás, mesmo a discussão (e piadas!) sobre se o feijão vai em cima ou vai embaixo do arroz não coloca em risco a continuidade desse prato nacional. Já, uma receita de uma comunidade caiçara, feita com uma espécie de peixe que corre o risco de extinção, o simples fato de abandonar essa receita para proteger a espécie de peixe pode fazê-la cair no esquecimento e enfraquecer outras tradições relacionadas a esse prato e mesmo ao peixe. Por outro lado, ao se registrar a receita, os modos de preparo e envolver a comunidade na preservação daquela espécie de peixe pode manter viva a tradição como celebração. E isso também é um lugar de memória.
A grande questão que envolve os lugares de memória, é que eles são criados apenas porque é necessário relembrá-los. Ou seja, eles estão no limite do esquecimento, já que não fazem mais parte da vida cotidiana. Isso significa que se não explorarmos todo o potencial histórico dos lugares de memória, todo o conhecimento que eles carregam já não estará mais relacionado com nosso presente.
Um lugar de curiosidades ou um lugar de história viva?
O Professor Ulpiano Bezerra de Menezes, em seu artigo: Do teatro da memória ao laboratório da História: a exposição museológica e o conhecimento histórico, de 1994, diz que um dos grandes problemas dos museus históricos está na “fetichização” do objeto, ou seja, apresentar os objetos como se eles tivessem carregados de uma aura que os fazem serem importantes por si mesmos. Por exemplo, apresentar um objeto como se fosse importante apenas porque “é do século XIX”. Podemos levar essa observação também para os prédios históricos, os projetos de memória oral e todos os outros lugares de memória.
Quando o objeto é apresentado dessa maneira, dificilmente ele envolve o interesse das pessoas; funciona apenas como um objeto de curiosidade momentânea, mas não se conecta com sua realidade. Isso porque a memória não está nos objetos em si como uma característica, tal qual formato, cor, peso. A memória só é evocada quando temos uma relação com tal objeto.
Assim, o que faz os museus, monumentos ou prédios históricos serem lugares vivos é dar significado a eles, trazê-los para o contexto presente e conectar com a memória da vivência das pessoas.
Com relação à história do meio ambiente paulista, os lugares de memória podem ser explorados para que se tornem elos de identidade entre a população e o meio ambiente paulista, para que haja engajamento nas causas ambientais.
Nos museus ambientais, por exemplo, apresentar curiosidades sobre objetos raros ou pesquisadores como heróis do passado acaba restringindo a conexão com a história ambiental ao momento da visita. É mostrando nesses espaços o que é ciência e relacionando-a com as pesquisas do presente, destacando como elas são importantes para nosso dia a dia, que podemos conectá-la em uma abrangência muito maior das pesquisas científicas para o meio ambiente.

Foto: Parque da Juventude – Denise Scabin.
Os Parques Urbanos também são lugares de memória.
Mais do que registrar o passeio junto à beleza cênica de seus prédios históricos, é possível, por meio da Educação Ambiental, explorar o contexto de quando foi criado. O Parque da Água Branca, por exemplo, foi instituído no começo do século XX, rodeado de chácaras e áreas verdes, e a conexão com esse lugar de memória se dá na percepção sobre o quanto a cidade se transformou em diversos aspectos.
Em São Paulo, temos, também, o Parque da Juventude, que antigamente abrigava uma penitenciária. Ao olhar para as ruínas do antigo presídio do Carandiru (1920-2002) apenas como restos de uma obra demolida, sua presença pode ser até incômoda. Mas, ao explorar momentos de reflexão sobre a importância de espaços de lazer para a juventude, é possível promover o estabelecimento de elos de identidade do bairro com esse novo espaço, ressignificado exatamente por causa de sua história.
Para a Educação Ambiental, são inúmeras as possibilidades de se abordar história e lugares de memórias em seus processos, sempre buscando a conexão entre a memória do passado e o meio ambiente que temos hoje.
Trabalhando Educação Ambiental com História
Trabalhando Educação Ambiental com história
Ao olharmos para o patrimônio histórico, pelo contexto de um órgão público, que faz a gestão das políticas ambientais, as reflexões das ações de Educação Ambiental devem passar pelas transformações do meio ambiente, ao longo do tempo. Essa edificação é apenas uma memória longínqua do passado ou nos traz importantes lições no presente, sobre o meio ambiente? Caso sejam realizadas ações de Educação Ambiental nesse espaço físico, que conexões podemos criar com a realidade do presente?
Com os novos desafios do mundo contemporâneo, o Conselho Internacional de Museus (ICOM) aprovou, em 24 de agosto de 2022, uma nova definição de museu, durante a Conferência Geral do ICOM, em Praga.
“Um museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos e ao serviço da sociedade que pesquisa, coleciona, conserva, interpreta e expõe o patrimônio material e imaterial. Abertos ao público, acessíveis e inclusivos, os museus fomentam a diversidade e a sustentabilidade. Com a participação das comunidades, os museus funcionam e comunicam de forma ética e profissional, proporcionando experiências diversas para educação, fruição, reflexão e partilha de conhecimentos”.
Uma das maiores novidades nessa nova definição está no fato de se entender o museu como espaço democratizante, que atua para o diálogo crítico. Como diz Menezes, não devemos “(…) presumir que uma exposição só será devidamente fruída com a mediação, suponhamos, de um monitor. Seria o mesmo que pressupor a presença de um alfabetizador a cada leitura de um texto”. Nós devemos tomar esse alerta para todo o patrimônio histórico e assumir que a Educação Ambiental nesses locais deve ir além de uma visita guiada.
É interessante observar as experiências dos Ecomuseus, um conceito francês para museus, cuja gestão é realizada pela comunidade, como os museus comunitários americanos. Nesse caso, a palavra “Eco” vem de ecologia humana, e tem a experiência das pessoas como centro, e não o objeto.
Ao considerar o patrimônio histórico enquanto espaço de Educação Ambiental, este diálogo crítico também está amparado pela Política de Educação Ambiental, que prevê ações que fomentem e qualifiquem a ampla participação da sociedade, na formulação e execução de políticas públicas relacionadas ao meio ambiente. Assim, o museu ambiental ou edifício histórico pode ter seu potencial totalmente explorado, sendo transformado em fórum, local de discussão e debates, por exemplo.
Assim, as ações de Educação Ambiental podem extrapolar o que é patrimônio “físico” das instituições de meio ambiente, se pensarmos na paisagem cultural e nas cidades históricas (como o município de Iguape e todas as histórias relacionadas aos seus recursos naturais e às transformações urbanas ao longo de seus 483 anos), e, até mesmo, se considerarmos áreas em constante transformação, como a cidade de São Paulo ou o bairro em que moramos.
Se num projeto de memória oral em uma unidade de conservação, por exemplo, gravarmos a fala das pessoas para que não sejam esquecidas, elas serão relembradas apenas quando ouvirmos a gravação. Mas, se por outro lado, os saberes tradicionais forem valorizados por meio da fala e da criação de espaços, momentos e oportunidades de integração, teremos pessoas que se identificam com a causa da proteção daquela área.
Nesses casos, a memória oral é uma estratégia para fortalecer a identidade da comunidade com a área em questão e criar meios de integração e mobilização. Dessa forma, o projeto de memória oral não é finalizado com a captação das memórias. Isso é apenas o começo de um processo muito maior.
A construção da ferrovia, inaugurada em 1883, ajudou a dar início ao povoado de Ferraz, distrito da cidade de Rio Claro, no estado de São Paulo. Trouxe muitos imigrantes para a região, que eram predominantemente italianos e alemães, além de ampliar as possibilidades agrícolas e de exploração dos recursos naturais da região.
Desta forma, a ação educativa em um museu ambiental, um edifício histórico ou com uma comunidade tradicional pode criar vínculos entre narrativas pessoais e institucionais, desenhando uma identidade compartilhada. E, com isso, propor reflexões sobre as ações do passado, criando compromissos no presente, com vistas a um futuro melhor.
Isso pode ser feito ultrapassando os limites da atividade guiada explicativa, que termina com a visita ao edifício histórico. A identidade e abertura à participação é a chave para engajar as pessoas nas causas ambientais, evitando olhar para o patrimônio histórico apenas como um templo aurático. E lembrar que a história só faz sentido se for observada como algo vivo, que respira também no presente.
Saiba Mais:
Referências e fontes consultadas
- MENEZES, Ulpiano. Do teatro da memória ao laboratório da História, 1994.
- NORA, Pierre. Entre Memória e História, 1993.
Texto: Sandra Oliveira
Revisão e edição de texto: Denise Scabin – DEA/SEMIL
Foto do Museu Florestal: Paulo Muzio – IPA
Foto do Parque da Juventude: Denise Scabin – DEA/SEMIL