20/10/2026

Conhecer os impactos dos agrotóxicos sobre o meio ambiente, a biodiversidade e a saúde humana é fundamental para refletirmos sobre modelos de produção e consumo mais sustentáveis.

A agricultura foi alavancada, nas décadas de 60 e 70, com a chamada “Revolução Verde”, em que práticas de mecanização, correção e fertilização do solo, e o uso de defensivos químicos contra pragas e doenças, expandiu a produção de alimentos, no mundo, a um nível nunca visto antes.
Consequências catastróficas destas práticas, como a erosão e a contaminação de solos e recursos hídricos, bem como a contaminação do trabalhador rural, de animais e de consumidores, começaram a ser notados ainda nos anos 60.
Com o livro “Primavera Silenciosa”, a bióloga e escritora Rachel Carson desafiou as práticas agrícolas contemporâneas, alertando a respeito dos efeitos danosos do uso indiscriminado de pesticidas e inseticidas, em especial o DDT (Dicloro-Difenil-Tricloroetano), e os seus impactos no meio ambiente e na saúde humana.
No livro, Carson fala sobre intoxicação em humanos e acúmulo de resíduos de inseticidas organoclorados no organismo das pessoas, denuncia a presença de agrotóxicos em quase todos os tipos de alimentos, inclusive no leite materno, mostra a correlação entre resíduos de agrotóxicos em alimentos e muitas doenças crônicas na população, como o câncer, e revela a destruição da fauna terrestre e aquática.
“Primavera silenciosa” remete a uma primavera sem o canto dos pássaros, que estavam sendo extintos pelo uso indiscriminado do DDT, que provocava o enfraquecimento das cascas de ovos das aves.
Os agrotóxicos podem, também, matar polinizadores importantes como as abelhas, o que pode impactar gravemente na produção de alimentos.

O que são agrotóxicos?

Agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos, carrapatos, sob a justificativa de controlar as doenças provocadas por esses vetores e de regular o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural quanto urbano (BRASIL, 2002; INCA, 2021).

Os agrotóxicos (inseticidas, herbicidas, fungicidas, germicidas) são utilizados em atividades agrícolas e não agrícolas.
Nas atividades agrícolas, são usados na limpeza de terrenos, no preparo do solo, para preservar os produtos agrícolas da ação de seres vivos nocivos, exterminando pragas e evitando doenças nas plantações, no acompanhamento da lavoura, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens e nas florestas plantadas, com a finalidade de controlar doenças e aumentar a produtividade.
Nas atividades não agrícolas, são usados em florestas nativas ou outros ecossistemas, como lagos e açudes, por exemplo; são usados, ainda, em ambientes urbanos e industriais, domiciliares, públicos ou coletivos, no tratamento de água e em campanhas de saúde pública.
Também são considerados agrotóxicos as substâncias químicas empregadas como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.

Impactos dos agrotóxicos

Os agrotóxicos são extremamente nocivos ao meio ambiente, pois contaminam o solo; as águas superficiais e subterrâneas; os alimentos produzidos, que serão ingeridos pelas pessoas; e organismos inofensivos e importantes para o equilíbrio da biodiversidade.
Os agrotóxicos podem matar polinizadores importantes, como as abelhas, o que pode impactar gravemente na produção de alimentos.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os agrotóxicos provocam, por ano, 70 mil casos de intoxicações agudas e crônicas, que evoluem para óbito, nos países em desenvolvimento.
Devido ao avanço do agronegócio, o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos.
Em decorrência disso, há o registro de graves problemas, como: o uso inadequado de agrotóxicos, a permissão, no Brasil, de agrotóxicos já banidos em outros países e a venda ilegal de agrotóxicos, que já foram proibidos no país.

Dependendo do agrotóxico empregado, do tempo de exposição e da quantidade de produto absorvida pelo organismo, graves doenças podem ser provocadas pelo uso indiscriminado de agrotóxicos.
Pessoas que trabalham em indústrias de formulação de agrotóxicos, de transporte e comércio desses produtos, que utilizam agrotóxicos na agricultura e pecuária, em empresas dedetizadoras, estão mais expostas aos riscos.
Além disso, não apenas as pessoas que trabalham nas lavouras usando agrotóxicos estão expostas aos riscos, mas também as pessoas que consomem alimentos e água contaminados.
Pessoas expostas a agrotóxicos podem apresentar irritação na pele, ardência, desidratação, alergias, ardência do nariz e boca, tosse, coriza, dor no peito, dificuldade de respirar, irritação da boca e garganta, dor de estômago, náuseas, vômitos, diarreia, dor de cabeça, transpiração anormal, fraqueza, câimbras, tremores e irritabilidade.
Pessoas expostas repetidamente a pequenas quantidades de agrotóxicos, por um longo tempo, podem apresentar diversos problemas de saúde, incluindo alterações hormonais, infertilidade, problemas respiratórios graves, malformações e diferentes tipos de câncer.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) são registradas 20 mil mortes por ano devido ao consumo de agrotóxicos.
Certos agrotóxicos, como os organoclorados (DDT), BHC, ALDRIM, CARBOFURANO, ENDOSULFAN, LINDANO, METAMIDOFOS, PARATION, PARATIONA METILICA e PENTACLOROFENOL foram proibidos ou banidos em alguns países, como o Brasil.
A Lei n. º 14.785, de 27 de dezembro de 2023, dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem, a rotulagem, o transporte, o armazenamento, a comercialização, a utilização, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e das embalagens, o registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos.

Saiba mais

Lei n.º 14.785, de 27 de dezembro de 2023:
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14785.htm#art65

Agricultura Sustentável e Agroecologia

A agricultura sustentável é uma alternativa ao uso de agrotóxicos.
“Agricultura sustentável é o manejo e a conservação da base de recursos naturais e a orientação tecnológica e institucional, de maneira a assegurar a obtenção e a satisfação contínua das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras.”

A Agroecologia é a base das principais vertentes de uma agricultura sustentável:

  • A Agricultura Orgânica ou Biológica;
  • A Agricultura Biodinâmica;
  • A Agricultura Natural;
  • A Permacultura.

Segundo a Lei nº 16.684, de 19 de março de 2018, que institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PEAPO, agroecologia é o campo do conhecimento transdisciplinar que estuda os agroecossistemas.
É importante salientar que há estudos que afirmam que o uso reduzido de insumos químicos na agricultura, além de diminuir os impactos negativos sobre o meio ambiente e a saúde humana, diminui também os custos de produção, sem reduzir e, em alguns casos, até aumentando a produtividade das lavouras.

Reflexão

Conhecer os impactos dos agrotóxicos e as alternativas sustentáveis de produção é um
passo importante para a proteção da biodiversidade, dos recursos naturais e da saúde humana.

 

Referências 

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Brasil). Monografias autorizadas. Brasília, DF: ANVISA, 2018.
ALESP. Lei nº 16.684, de 19 de março de 2018. Institui a Política Estadual de Agroecologia e Produção Orgânica – PEAPO, e dá outras providências. Disponível em:
https://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2018/lei-16684-19.03.2018.html

BRASIL. Decreto nº 4.074, de 4 de janeiro de 2002. Regulamenta a Lei no 7.802, de 11 de julho de 1989, que dispõe sobre a pesquisa, a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o transporte, o armazenamento, […] e a fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e afins, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 139, n. 5, p. 1-12, 8 jan. 2002.
CARNEIRO, F. F. et al. Segurança Alimentar e nutricional e saúde. Parte 1. In CARNEIRO, Fernando Ferreira et al. (org.) Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015.
CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Fourth national report on human exposure to environmental chemicals. Atlanta, GA: Centers for Disease Control and Prevention, 2009.
INCA. Agrotóxico. Disponível em:https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/causas-e-prevencao-do-cancer/exposicao-no-trabalho-e-no-ambiente/agrotoxico

INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER JOSÉ ALENCAR GOMES DA SILVA. Ambiente, trabalho e câncer: aspectos epidemiológicos, toxicológicos e regulatórios / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. – Rio de Janeiro: INCA, 2021.
KLAASSEN, C. D. (ed.). Casarett and Doull’s toxicology: the basic science of poisons. 8th ed. New York: McGraw-Hill Education, 2013.
NARVAES, PATRÍCIA. Dicionário ilustrado de meio ambiente. 2ª edição. São Caetano do Sul, SP: Yendis Editora; Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, 2012.
SÃO PAULO (ESTADO). Secretaria do Meio Ambiente. Agricultura sustentável. São Paulo: SMA, 2011.
SARPA, M. et al. Postnatal development and fertility of offspring from mice exposed to Triphenyltin (Fentin) Hydroxide during pregnancy and lactation. Journal of Toxicology and Environmental Health: Part A, v. 73, n. 13/14, p. 965-971, jun. 2010.

 

 

 


Texto: Denise Scabin – DEA/SEMIL
Gestão de conteúdo, planejamento e arte: Cibele Aguirre – DEA/ SEMIL