Servidor há 26 anos e pai de criança autista, Fábio Mendes une carreira pública e luta por inclusão
Abril é um mês de reflexão. Um tempo para falarmos sobre inclusão, acessibilidade e, acima de tudo, sobre a importância de enxergar o outro e sua singularidade. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) vai além de apenas mais uma pauta de conscientização; é uma realidade vivida por muitas famílias, repleta de desafios, descobertas e aprendizados.
Fábio Mendes conhece essa realidade de perto. O novo subsecretário de Gestão Corporativa da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil) carrega uma trajetória de 26 anos no serviço público. Mas, antes de qualquer cargo ou título, ele é pai da Giulia, Bruna e da pequena Eloisa; esta última autista, de seis anos, que o ensina todos os dias sobre inclusão e empatia. Em casa e no trabalho, suas duas missões se cruzam: garantir um futuro mais sustentável e uma sociedade mais acessível.
Nesta conversa, Fábio abre o coração e compartilha os caminhos que o trouxeram até aqui. Fala sobre sua trajetória profissional, os desafios da administração ambiental e como sua experiência como pai de uma criança atípica molda sua visão sobre inclusão.
Curta Semil: Você sempre quis trabalhar na área ambiental ou sua carreira tomou esse rumo ao longo do tempo?
Fábio Mendes: Na verdade, minha entrada na área ambiental aconteceu de forma inesperada. Eu prestei um concurso público municipal na área administrativa e fui alocado em um convênio entre a prefeitura e o Estado, dentro do DEPRN (Departamento Estadual de Proteção de Recursos Naturais). No início, eu não conhecia a fundo o setor, mas logo fui aprendendo sobre licenciamento, fiscalização e preservação ambiental.
O tempo me mostrou que a gestão ambiental envolve muito mais do que apenas burocracia. É um trabalho que exige visão estratégica, compromisso com o futuro e responsabilidade pública. A cada novo desafio, fui me especializando e entendendo a importância desse setor, e hoje tenho orgulho de ter construído minha trajetória dentro dele.
Se pudesse dar um conselho para alguém que quer seguir carreira no setor ambiental e na administração pública, qual seria?
Meu maior conselho é ter paciência e persistência. No serviço público, os resultados não aparecem da noite para o dia, e é preciso dedicação para crescer e ser reconhecido.
Quem busca uma carreira pública precisa entender que o trabalho é coletivo e voltado para o interesse da sociedade. Nem sempre as conquistas serão imediatas, mas a longo prazo, o esforço e o comprometimento fazem a diferença. Se você está disposto a aprender, a enfrentar desafios e a contribuir para um futuro melhor, a administração pública pode ser um caminho gratificante.
Na sua opinião, quais são os principais desafios da Semil?
Um dos maiores desafios é garantir investimentos e melhorias na infraestrutura ambiental do estado com a menor dependência de recursos públicos. A desestatização e as parcerias com a iniciativa privada têm sido estratégias fundamentais para que possamos avançar nesse sentido.
Além disso, há a questão da valorização do quadro funcional e da reestruturação da pasta. Desde o início da atual gestão, temos trabalhado para fortalecer a estrutura organizacional, garantindo que a secretaria esteja preparada para atender às demandas ambientais e de infraestrutura com mais eficiência.
Houve alguma experiência marcante que despertou seu interesse por essa área? Alguma lembrança de infância ou adolescência que ajudou a moldar esse caminho?
Cresci em uma família de servidores públicos. Minha mãe trabalhou na Secretaria da Educação e foi chefe do cartório eleitoral da cidade onde vivo até hoje. Meu tio era escrivão no Fórum e meu pai bancário. Desde cedo, tive exemplos de comprometimento com o serviço público, o que me motivou a seguir esse caminho.
Prestei meu primeiro concurso com 19 anos, logo após terminar o colegial e ingressar na faculdade de Direito. Passei e, em 1999, iniciei minha trajetória no setor público. Desde então, aprendi que essa carreira exige responsabilidade e dedicação, mas também traz uma enorme satisfação por saber que estamos contribuindo para a sociedade.
Seus pais te inspiraram e você, como pai, conseguiu passar essa paixão pelo setor público para suas filhas?
Tenho três filhas: uma de 18 anos, a Giulia, outra de 12, Bruna e a mais nova de 6 anos, que é autista, a Eloisa. Minha filha mais velha escolheu a pedagogia e quer se especializar em inclusão, especialmente no autismo, pois convive de perto com a irmã e entende a importância desse tema. Isso me emociona muito, porque mostra como a vivência dela trouxe um propósito.
Em casa, tentamos levar os valores que aprendi na minha trajetória profissional para o dia a dia. Falamos sobre sustentabilidade, incentivamos a coleta seletiva e sempre buscamos conscientizar sobre questões ambientais. E, claro, o serviço público faz parte da nossa rotina. Elas acompanham o meu esforço e sabem da importância do trabalho que realizamos na Secretaria.
Como é ser um pai atípico e conciliar uma rotina corrida?
É um desafio diário. Moro no interior e trabalho na capital, então minha esposa é quem assume a maior parte das terapias da nossa filha. Ela faz acompanhamento praticamente todos os dias, e isso exige muita organização e comprometimento da família como um todo.
Para manter o equilíbrio, temos um compromisso: todas as noites jantamos juntos, independentemente do horário que eu chegue. Esse momento é sagrado para nós, porque é quando conseguimos conversar, compartilhar o dia e fortalecer os laços.
O mês de abril é muito especial para nossa família, pois é o mês de conscientização sobre o autismo. Sei, por experiência própria, que a inclusão vai muito além de políticas públicas – ela começa dentro de casa, na escola e em cada interação diária. Por isso, defendo tanto a importância de ambientes mais acessíveis e de um olhar mais atento para essa questão, seja na gestão pública ou na sociedade como um todo.
Quais serão seus principais desafios e prioridades na nova função como Subsecretário de Gestão Corporativa? Algum projeto ou ação que você pretende fortalecer logo de início?
A secretaria já passou por uma grande reestruturação desde o início de 2023, ampliando suas atribuições e consolidando novas subsecretarias, como a de Gestão Corporativa. Essa mudança foi fundamental para padronizar os processos administrativos e garantir mais eficiência.
Agora, nosso foco é fortalecer essa estrutura e aprimorar a gestão, garantindo que a Secretaria continue avançando nas áreas de meio ambiente, saneamento, logística, energia e mineração. Nosso objetivo é tornar a máquina pública mais eficiente e integrada, proporcionando melhores serviços para a população.