Marilda Borba: A estratégia e a sensibilidade por trás da gestão ambiental de São Paulo
Com atuação decisiva no planejamento orçamentário da Semil, ajudou a viabilizar ações que protegem o meio ambiente e melhoram a vida de milhares de paulistas
Ao longo de mais de quatro décadas de serviço público, Marilda Borba construiu muito mais do que uma carreira, ela traçou, com precisão e sensibilidade, caminhos que ajudaram a transformar a política ambiental do Estado de São Paulo. Economista de formação, tornou-se referência no planejamento orçamentário da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil). Agora, na subsecretaria de Gestão Corporativa e seguem com uma atuação que vai além dos números: dar sentido e propósito aos recursos públicos.
Sua trajetória atravessa projetos marcantes, mudanças estruturais e experiências de campo que moldaram sua visão de mundo. Entre reuniões técnicas e trilhas no meio da mata, Marilda viu de perto as consequências de decisões bem planejadas: áreas regeneradas, comunidades reassentadas com dignidade, nascentes que voltaram. Com serenidade, ela fala sobre sua história como quem ainda se encanta com a possibilidade de fazer a diferença.
Como começou sua trajetória no serviço público e no meio ambiente?
Minha trajetória no serviço público soma 42 anos, mas minha vida profissional já alcança meio século. Comecei minha caminhada no Instituto de Eletrotécnica e Energia, mas foi na área ambiental que encontrei meu verdadeiro propósito. Desde então, há 34 anos, venho atuando em diferentes áreas da secretaria, [sempre com o olhar voltado para o impacto social e ambiental do nosso trabalho.
Nos anos 1990, participei da Assessoria de Controle, que fazia um trabalho precursor do que hoje entendemos como planejamento estratégico. Depois, integrei o Projeto de Preservação da Mata Atlântica, uma experiência que me marcou profundamente. Estávamos conectados diretamente ao território, em contato com comunidades, lidando com as dificuldades do campo e com a beleza da natureza preservada. Foi ali que compreendi, de maneira definitiva, que política ambiental não é apenas técnica: é relação humana, é ética, é cuidado com o presente e com o futuro.
Qual é o seu cargo atual na Semil e como é sua rotina?
Atualmente sou analista ambiental e faço parte do Grupo Setorial de Planejamento, Orçamento e Finanças Públicas (GSPOFP), que integra a Diretoria de Finanças da Subsecretaria de Gestão Corporativa. Nossa função, muitas vezes silenciosa, é fundamental: trabalhamos no planejamento das peças orçamentárias da secretaria, garantindo que os recursos públicos estejam alinhados com as prioridades reais do órgão.
Não basta distribuir valores, é preciso entender a lógica de cada área, suas necessidades específicas, seus projetos em andamento e os desafios que enfrentam. Vivemos em ciclos de grande intensidade, como agora, na elaboração do orçamento para 2026. E, mesmo com tantos anos de experiência, cada nova rodada de trabalho traz aprendizados, novos contextos e a necessidade de escuta constante. É uma rotina que exige olhar técnico, mas também sensibilidade para compreender o todo.
Há projetos que marcaram especialmente sua trajetória?
Sim, vários projetos deixaram marcas em mim, e felizmente, no território paulista. O Programa Serra do Mar foi uma dessas experiências transformadoras. Atuamos na desocupação de áreas de risco e na regeneração de espaços naturais que haviam sido ocupados de forma irregular. Mais do que proteger o meio ambiente, levamos dignidade às pessoas, oferecendo alternativas reais de moradia segura.
Já o projeto Conexão Mata Atlântica me ensinou sobre a delicada e poderosa relação entre sustentabilidade e desenvolvimento. Com recursos do BID, trabalhamos com pagamentos por serviços ambientais, incentivando pequenos produtores a adotarem práticas sustentáveis em suas terras. Os resultados foram impressionantes: nascentes que voltaram a correr, aumento na produção de leite, melhorias na qualidade de vida. E, mais do que isso, o sentimento de pertencimento desses produtores à agenda ambiental. Isso tudo mostra como o bom planejamento é capaz de mudar realidades de forma concreta e duradoura.
O que te move a continuar mesmo depois de tantos anos de serviço?
O que me move é o senso de responsabilidade e a crença no poder transformador do serviço público. Sempre acreditei que, por meio de um bom planejamento, é possível fazer com que o orçamento não seja apenas uma obrigação administrativa, mas uma ferramenta de justiça e equilíbrio. A Semil é uma secretaria complexa, com múltiplas frentes de atuação, e isso torna o trabalho ainda mais desafiador e instigante.
Sigo motivada porque entendo que minha experiência pode contribuir, e porque, apesar do tempo, sigo curiosa, com vontade de aprender, de acompanhar as mudanças e de colaborar com as próximas gerações de servidores. Enquanto eu tiver saúde e entusiasmo, estarei aqui contribuindo com o que sei, com o que vivi, com o que aprendi, e com aquilo que ainda quero descobrir.
E fora do trabalho? Como você gosta de aproveitar a vida?
Sou uma grande amante das viagens. Viajar é, para mim, mais do que conhecer novos lugares é uma forma de me reconectar, de expandir minha visão de mundo, de celebrar a vida em toda a sua diversidade. Também gosto muito de ir a shows, peças de teatro, de frequentar eventos culturais e, principalmente, de compartilhar esses momentos com minhas irmãs, com quem tenho uma relação muito próxima.
Acredito que o lazer é tão importante quanto o trabalho. Ele nos recarrega, nos dá leveza e nos lembra que a vida é feita também de beleza, de arte e de vínculos afetivos.
O que te marcou profundamente em sua jornada pela Semil?
Uma viagem a trabalho. Estávamos em missão técnica na Estação Ecológica Jureia-Itatins, e seguimos até um ponto chamado Rio Verde. A região é extremamente preservada, silenciosa, com uma natureza de beleza quase primitiva. Foi um momento de profunda conexão com a natureza. Ali, compreendi com mais intensidade o quanto nosso próprio estado guarda tesouros ambientais que muitas vezes são desconhecidos até por quem vive aqui. Tenho um carinho especial pelas unidades de conservação do litoral paulista, conheço várias e sempre que posso recomendo às pessoas que as descubram. São verdadeiras joias.
Como você enxerga o impacto do seu trabalho na vida das pessoas?
Mesmo atuando em uma área mais técnica, consigo perceber com clareza os efeitos práticos do que fazemos. Um orçamento bem planejado significa um projeto executado com eficiência, uma política pública que chega a quem precisa, uma área degradada que pode ser restaurada.
Quando penso nos projetos que participei, especialmente os que envolviam comunidades, percebo que cada ação planejada com cuidado tem o poder de transformar vidas. Um pequeno produtor que muda sua forma de cultivar, uma família que passa a ter acesso à água limpa, uma área que se regenera depois de anos de uso inadequado, tudo isso é reflexo do nosso trabalho.
Ainda há sonhos a realizar?
Os sonhos nunca cessam. Tenho muitos planos de viagem, especialmente para lugares que ainda não conheço, como a Namíbia e Zanzibar. Já percorri boa parte da Europa, América, do Caribe, mas o continente africano ainda me chama com força.
Quero ver de perto suas paisagens, seus animais, suas culturas. Ao mesmo tempo, meu maior sonho é continuar levando uma vida com qualidade, com saúde, cercada pelas pessoas que amo e com a sensação de que contribuí para um mundo melhor.