Na Semil, profissionais de diferentes áreas atuam diariamente para transformar leis em ações concretas. Entre eles está Elaine Andrade, especialista ambiental que dedica sua carreira à fiscalização ambiental e à gestão de autos de infração – instrumentos fundamentais para responsabilizar infratores e promover a recuperação de danos causados à natureza. 

Proteger o meio ambiente nem sempre significa estar em campo diante de florestas ou rios. Em muitos casos, esse trabalho acontece dentro de escritórios, analisando documentos, avaliando processos e garantindo que a legislação ambiental seja cumprida.  

Lotada na divisão técnica regional de Campinas, Elaine acompanha processos que envolvem dezenas de municípios e diferentes realidades ambientais. Seu trabalho exige atenção aos detalhes e uma capacidade constante de diálogo com cidadãos, instituições e órgãos de fiscalização. 

Ao longo de quase duas décadas na secretaria, ela também testemunhou mudanças importantes na forma como o Estado conduz a fiscalização ambiental, com a digitalização dos processos e o fortalecimento de mecanismos de conciliação ambiental. Nesta entrevista, Elaine fala sobre sua trajetória no serviço público, os desafios da fiscalização e as experiências que moldaram sua relação com o meio ambiente. 

Como você explicaria seu trabalho para alguém que nunca ouviu falar da fiscalização ambiental? 

Quando alguém me pergunta o que eu faço, eu gosto de dizer que trabalho no ponto exato onde a natureza encontra a lei. A fiscalização ambiental é, na prática, um instrumento fundamental das políticas públicas de proteção ao meio ambiente. Ela entra em cena quando algo saiu do lugar – quando há um desmatamento ilegal, uma intervenção em área protegida, um dano contra a fauna, ou qualquer outro tipo de dano ambiental. 

Nesses casos, a Polícia Militar Ambiental realiza a autuação e lavra o auto de infração. Esse documento formaliza a ocorrência e dá início a um processo administrativo. Mas o papel do Estado não termina aí, na verdade, é nesse momento que o nosso trabalho começa. 

Dentro da secretaria, fazemos a gestão desses processos. Analisamos cada caso com atenção, avaliamos documentos, conduzimos o atendimento ambiental ao autuado, examinamos possíveis defesas, definimos e propomos as medidas de reparação do dano ambiental, quando necessárias, e acompanhamos todo o percurso administrativo que pode levar à reparação do dano. É um trabalho que exige olhar técnico, conhecimento da legislação e, muitas vezes, sensibilidade para compreender as circunstâncias de cada situação. 

Eu costumo dizer que a fiscalização não existe apenas para punir. A ideia central é garantir que o meio ambiente seja restaurado sempre que possível, bem como, orientar o infrator de modo a não incorrer novamente na conduta infracional. No fundo, o que buscamos é que aquela porção de solo, aquele curso d’água ou aquela área de vegetação tenha a chance de se recompor.  

Como funciona o atendimento dentro desse processo? 

O atendimento é um momento muito significativo dentro do processo, porque é quando a dimensão mais humana da fiscalização aparece. Quando o caso chega até nós, a pessoa autuada é convocada para uma sessão de atendimento. É um encontro em que explicamos, com calma e clareza, o que aconteceu, qual foi a infração identificada e o que diz a legislação ambiental sobre aquela situação. 

Mas esse momento não é apenas burocrático. Muitas vezes ele se transforma em uma conversa longa, em que percebemos que as pessoas nem sempre têm plena consciência das regras ou das consequências ambientais de determinadas ações. É aí que o trabalho ganha também um caráter educativo. 

Nós procuramos mostrar que a legislação ambiental não existe para dificultar a vida das pessoas, mas para preservar recursos que pertencem a todos. A partir dessa conversa, buscamos caminhos possíveis para reparar o dano. Em muitos casos, isso se materializa em um termo de compromisso de recuperação ambiental — um acordo em que a pessoa se compromete a restaurar a área afetada ou adotar medidas de regularização. 

Depois disso, seguimos acompanhando se essas ações estão sendo de fato realizadas. Quando funcionam, esses acordos representam algo muito poderoso: a possibilidade de transformar um conflito ambiental em um processo de recuperação. 

Qual é a dimensão da área que você atende atualmente? 

Hoje trabalho na divisão técnica regional de Campinas, que atende 90 municípios. É uma região muito ampla e extremamente diversa. 

Estamos falando de um território que reúne grandes áreas urbanas, zonas rurais extensas, fragmentos importantes de vegetação nativa e diferentes tipos de ecossistemas. Essa diversidade faz com que cada processo seja quase como uma pequena história própria. 

Há casos que envolvem intervenções pequenas e pontuais, mas também surgem situações mais complexas, que exigem análises técnicas detalhadas e um olhar jurídico bastante cuidadoso. Cada documento, cada fotografia de campo, cada relatório pode trazer uma peça nova para entender o que aconteceu naquele lugar. 

Mesmo trabalhando na parte administrativa, nunca perdemos de vista que cada decisão tomada dentro de um processo tem repercussão concreta no território. De alguma maneira, aquilo que analisamos em uma mesa de trabalho pode influenciar diretamente a recuperação de uma área degradada ou a preservação de um fragmento ambiental importante. 

Você acompanhou mudanças importantes na fiscalização ambiental ao longo dos anos? 

Muitas mudanças. Quando entrei na secretaria, em 2009, o cenário era bem diferente do que vemos hoje. Grande parte dos processos ainda era feita manualmente. Havia documentos preenchidos à mão, pilhas de papéis e até processos muito antigos datilografados em máquina de escrever. Era um trabalho que exigia bastante organização e também muita paciência para lidar com a tramitação física dos documentos. 

Com o passar dos anos, houve uma transformação significativa. Os processos passaram a ser digitais e passamos a trabalhar com sistemas eletrônicos que permitem acompanhar cada etapa de forma muito mais ágil. Isso trouxe mais transparência, mais organização e também mais eficiência para o trabalho. 

Outra mudança importante foi o fortalecimento de mecanismos de conciliação ambiental. Hoje há um esforço maior para resolver os conflitos de forma mais rápida e incentivar a reparação voluntária dos danos. É uma abordagem que busca equilibrar fiscalização com orientação e educação ambiental. 

Na prática, significa entender que proteger o meio ambiente também passa por construir soluções possíveis. 

Como começou sua trajetória na secretaria? 

Minha formação inicial é em turismo, uma área que dialoga muito com a natureza, com o patrimônio cultural e com a ideia de desenvolvimento sustentável. 

Durante a faculdade tive contato com disciplinas ligadas aos recursos naturais e isso despertou em mim um interesse crescente pelas questões ambientais. Comecei a perceber como o território, a paisagem e os ecossistemas estão profundamente ligados à forma como as pessoas vivem e se relacionam com os lugares. 

Mais tarde iniciei também a faculdade de Direito, o que ampliou ainda mais essa conexão – agora pelo caminho da legislação e das políticas públicas. 

Quando surgiu o concurso da secretaria, senti que era uma oportunidade muito interessante de reunir essas duas áreas de interesse em uma carreira no serviço público. Prestei o concurso e tomei posse em 2009. 

Desde então, minha trajetória profissional foi se construindo dentro da fiscalização ambiental, aprendendo aos poucos a complexidade e a importância desse trabalho. 

O início da carreira costuma marcar muito os profissionais. Como foi o seu? 

Foi um período muito intenso de aprendizado. No início trabalhei no gabinete da coordenadoria responsável pela conservação da biodiversidade e fiscalização ambiental, na época. Isso me permitiu observar o funcionamento da secretaria de um ponto de vista mais amplo, acompanhando projetos, decisões e diferentes frentes de atuação da política ambiental. 

Foi também uma fase muito rica de convivência com profissionais experientes. Eu estava cercada de pessoas que tinham anos de serviço público e uma bagagem enorme de conhecimento técnico e institucional. 

Essa troca foi fundamental para a minha formação. Aos poucos fui entendendo melhor a dinâmica da administração pública, a importância dos processos e a responsabilidade envolvida em cada decisão. 

Foi nesse contexto que tive meu primeiro contato mais próximo com os processos de infração ambiental — e acabei me interessando muito por essa área. Percebi que ali existia um trabalho que combinava análise técnica, legislação e, ao mesmo tempo, um impacto concreto na preservação ambiental. 

Existe algum momento ou experiência da sua carreira que te marcou especialmente? 

Mais do que um episódio específico, o que mais me marcou ao longo desses anos foi a convivência com as pessoas. Muitos dos colegas que entraram na secretaria no mesmo concurso que eu continuam trabalhando aqui até hoje. Acompanhar o crescimento profissional de cada um, ver as trajetórias se desenvolvendo ao longo do tempo, é algo muito bonito. 

Criamos vínculos muito fortes. São amizades, parcerias de trabalho, conversas de corredor e também momentos difíceis compartilhados. Existe uma sensação muito clara de caminhada conjunta. 

O serviço público, às vezes, pode parecer algo muito impessoal visto de fora. Mas, por dentro, ele é feito por pessoas que constroem relações e que acreditam no que fazem. 

Quais são os maiores desafios hoje? 

Um dos maiores desafios é lidar com a complexidade do território. O estado de São Paulo é enorme e reúne realidades ambientais muito distintas. Temos regiões altamente urbanizadas, áreas agrícolas intensivas e também fragmentos importantes de vegetação nativa. Cada contexto traz seus próprios conflitos e desafios. 

Outro ponto importante é tornar os processos administrativos cada vez mais eficientes. Quanto mais ágil for a tramitação, maiores são as chances de garantir que a reparação ambiental aconteça de fato. 

A tecnologia tem ajudado bastante nesse sentido, mas sempre há espaço para melhorar procedimentos, integrar sistemas e tornar o trabalho mais fluido. 

No fundo, o grande desafio é fazer com que a fiscalização não seja apenas uma resposta ao dano, mas também uma ferramenta que contribua para evitar novos impactos. 

Depois de tantos anos na área ambiental, sua relação com o meio ambiente mudou? 

Mudou bastante. Quando você trabalha diariamente com questões ambientais, começa a desenvolver um olhar muito atento para o território. Pequenas coisas passam a chamar mais a atenção – uma área desmatada, um curso d’água alterado, uma vegetação que desapareceu. 

A gente percebe com mais clareza como decisões aparentemente pequenas podem gerar consequências grandes para a natureza. 

Isso também reforça a importância da educação ambiental. Porque, no final das contas, proteger o meio ambiente depende muito da forma como a sociedade compreende e valoriza esses recursos. 

E quando o expediente termina, o que você gosta de fazer para equilibrar a rotina? 

Eu gosto muito de viajar e conhecer novas culturas. Acho que sair da nossa realidade cotidiana e entrar em contato com outras formas de viver amplia muito a nossa percepção do mundo. Cada lugar tem sua própria história, seus costumes e sua maneira de se relacionar com a natureza e com o território. 

Existe alguma viagem que tenha sido especialmente marcante? 

Uma das viagens mais marcantes que fiz foi para o Egito. Estar diante de uma civilização tão antiga é uma experiência difícil de descrever. Você caminha por lugares que existem há milhares de anos e percebe que ali passaram inúmeras gerações antes de nós. 

Ver de perto monumentos tão antigos, sentir o peso da história e ao mesmo tempo observar a vida cotidiana acontecendo ao redor é algo muito impactante. É como se o tempo se tornasse mais amplo naquele momento. 

Quais são seus planos e metas para o futuro? 

Eu penso muito em desenvolvimento pessoal. Procuro sempre aprender mais, estudar, ampliar meus conhecimentos e evoluir tanto como profissional quanto como pessoa. Acho que essa busca constante por aprendizado é algo que nos mantém em movimento. 

Dentro da secretaria, espero continuar contribuindo com o trabalho que realizo hoje. Trabalhar em uma área que você acredita que tem impacto positivo na sociedade é algo muito valioso. 

No fundo, meu desejo é continuar fazendo parte dessa construção coletiva de proteção ao meio ambiente — mesmo que, muitas vezes, isso aconteça de forma silenciosa, dentro de processos e decisões que ajudam a preservar o futuro. 

E no lado pessoal, você comentou que tem um pet muito especial. Conta um pouco sobre ela. 

Tenho uma gatinha que é praticamente uma companheira de vida. Ela tem 22 anos, o que já é algo bastante raro para um gato, e por isso acabou se tornando quase uma personagem da minha história. Eu costumo brincar que ela já atravessou várias fases da minha vida comigo – mudanças de casa, de trabalho, de rotina – sempre ali presente.  

Com o passar do tempo, a gente aprende a perceber as pequenas mudanças: hoje ela já está mais tranquila, dorme mais, tem um ritmo mais calmo. Mesmo assim, continua com aquele olhar curioso de sempre. 

Ter um animal por tanto tempo também ensina muito sobre cuidado e paciência. Existe uma relação de afeto que se constrói no cotidiano, nos gestos mais simples — preparar a comida, observar se está tudo bem, dividir os momentos de silêncio da casa. 

Eu sempre digo que ela já está vivendo uma espécie de “sobrevida”, porque ultrapassou bastante a expectativa de vida normal de um gato. E, ao mesmo tempo, é bonito perceber como os animais conseguem envelhecer ao nosso lado, acompanhando as diferentes etapas da nossa vida. Hoje ela é parte da família, quase uma memória viva de tudo o que já passamos nesses anos. 

Você tem algum hobby? 

Como falei antes, tenho sim, e é algo que muita gente se surpreende quando eu conto: faço aulas de canto. A música entrou na minha vida como um espaço de respiro, quase como um contraponto à rotina de trabalho, que é bastante técnica e concentrada. 

Cantar exige presença, exige escuta, exige atenção ao próprio corpo e à respiração. Quando estou na aula ou praticando, é como se o ritmo do dia desacelerasse um pouco. A mente se desloca das preocupações cotidianas e passa a focar apenas na música, na melodia, na interpretação. 

Também é um exercício de autoconhecimento. A voz é algo muito íntimo, muito ligado à nossa emoção. Cada pessoa tem um timbre, uma forma de se expressar. Acho que todos nós precisamos de espaços assim, que nos permitam sair um pouco da lógica do trabalho e acessar outras dimensões da vida. Para mim, a música cumpre muito esse papel.