
17/06/2026
Durante o Fórum SP Conecta, governo, academia, setor produtivo e organismos internacionais defendem políticas baseadas em ciência e planejamento
A ideia de que desenvolvimento econômico e preservação ambiental caminham em direções opostas já não encontra espaço no discurso do governo paulista. Foi sob essa premissa que autoridades estaduais, representantes do setor produtivo, pesquisadores e organismos internacionais se reuniram nesta terça-feira (16), na sede da InvestSP, durante o Fórum SP Conecta: Economia Verde, Saneamento e Resiliência Hídrica.
O encontro, iniciativa integrante da Semana do Meio Ambiente organizado pelo governo de São Paulo, abriu espaço para discutir como ciência, inovação, infraestrutura e investimentos podem contribuir para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas sem comprometer o crescimento econômico.
No painel de abertura, a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), Natália Resende, defendeu que a integração entre diferentes áreas da administração pública tem sido um dos pilares da estratégia climática paulista. “A palavra integração representa muito do que estamos fazendo. Política pública eficaz exige planejamento, visão de longo prazo e coordenação entre diferentes setores”, afirmou.
Segundo a secretária, a criação de uma pasta que reúne meio ambiente, infraestrutura e logística permitiu superar uma lógica historicamente fragmentada da gestão pública e aproximar agendas que, por décadas, foram tratadas separadamente. “É uma continuidade. Desde 2023 estamos fazendo um grande esforço para construir uma estratégia climática robusta. O diálogo, a troca de ideias e as políticas públicas baseadas em dados são fundamentais para resolver desafios históricos de forma estruturante”, disse.
Entre os instrumentos citados está o Plano Estadual de Adaptação e Resiliência Climática (PEARC), elaborado com apoio técnico da GIZ e estruturado em eixos como segurança hídrica, biodiversidade, saúde, segurança alimentar, infraestrutura e justiça climática.
Ao defender uma visão pragmática da agenda ambiental, Natália destacou que a proteção dos recursos naturais precisa estar associada à geração de oportunidades econômicas.
Um dos exemplos apresentados foi o potencial de produção de biometano no Estado. Estudos conduzidos pelo governo apontam que São Paulo poderia suprir quase metade da demanda industrial pelo combustível renovável a partir de resíduos da cadeia sucroenergética e do lixo urbano.
“Quando o resíduo passa a ser tratado como recurso, ele gera emprego, renda, desenvolvimento econômico e ganhos ambientais. É uma agenda que conecta sustentabilidade e competitividade”, afirmou a titular da Pasta.
A aposta na transição energética e na valorização dos resíduos também foi apontada como uma oportunidade de desenvolvimento industrial e atração de investimentos. Para o diretor de Projetos da GIZ Brasil, Marco Schiewe, a agenda da descarbonização já produz resultados concretos em São Paulo por meio de parcerias entre governo, setor produtivo e instituições de pesquisa.
Segundo ele, programas de eficiência energética desenvolvidos em conjunto com a Semil, Desenvolve SP, Senai e entidades industriais já atenderam mais de 400 pequenas e médias empresas paulistas, estimulando a modernização de equipamentos e a redução do consumo energético. “Em algumas empresas, os gastos com energia representam até um terço dos custos operacionais. Trabalhar a eficiência energética significa aumentar a competitividade, preservar empregos e reduzir emissões ao mesmo tempo”, disse.
De acordo com Schiewe, os projetos apoiados pela cooperação alemã já evitaram a emissão de cerca de 500 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂) ao longo de sua vida útil e passaram a servir de modelo para outros estados brasileiros.
O executivo destacou ainda o potencial de São Paulo para liderar novos mercados ligados à economia de baixo carbono. Entre eles está a produção de combustível sustentável de aviação (SAF) a partir de resíduos da cana-de-açúcar, projeto que conta com apoio da GIZ e que recentemente motivou a assinatura de um memorando de entendimento entre parceiros brasileiros e alemães. “A demanda global por combustíveis de baixo carbono cresce rapidamente. O Brasil tem condições de produzir essas soluções com custos mais competitivos do que muitos países europeus. Isso representa uma oportunidade econômica importante para atrair investimentos e gerar empregos”, comentou.
Para Schiewe, a corrida global pela descarbonização tende a favorecer países com disponibilidade de biomassa, energia renovável e capacidade industrial instalada. Nesse cenário, São Paulo reúne condições para assumir posição de protagonismo em setores como biometano, combustíveis sustentáveis para aviação, transporte marítimo e aço verde.
A secretária também relacionou a agenda climática aos avanços em saneamento e segurança hídrica. Segundo ela, obras recentes ampliaram em 17% a capacidade do Sistema Alto Tietê e reforçaram o abastecimento para milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo. “Temos orgulho de dizer que temos o melhor saneamento do Brasil. Claro que precisamos melhorar, e é exatamente por isso que estamos fazendo investimentos estruturantes que ficaram muito tempo sem acontecer. Precisamos falar sobre saneamento de forma técnica, mostrando os benefícios concretos para a vida das pessoas”, salientou Natália.
Representando o setor produtivo, Joaquim Leite, ex-ministro do Meio Ambiente e presidente do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp, argumentou que os desafios ambientais globais podem se transformar em vantagens competitivas para o Brasil.
Na avaliação dele, é necessário substituir uma visão centrada apenas na redução de impactos por uma lógica de eficiência ambiental. “Temos que medir a eficiência ambiental das transformações que estamos promovendo. Toda obra de infraestrutura gera algum impacto, mas precisamos avaliar o resultado final. Quando se amplia o saneamento, a mobilidade ou a infraestrutura, o benefício ambiental e social precisa entrar nessa conta”, reiterou.
Leite destacou ainda que o país reúne condições singulares para liderar a transição para uma economia de baixo carbono, especialmente em áreas como energia renovável, biocombustíveis e aproveitamento de resíduos. “O mundo discute emissões, biodiversidade e uso de recursos naturais. O Brasil pode aproveitar esses desafios como oportunidades. São Paulo é uma locomotiva verde, com uma matriz energética extremamente competitiva e soluções que podem servir de exemplo para o mundo”, disse.
Já o secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, Vahan Agopyan, defendeu uma abordagem mais ampla para a sustentabilidade, baseada no equilíbrio entre as dimensões ambiental, social e econômica.
“Prefiro falar em economia sustentável ou economia circular. Sustentabilidade é um tripé. Não existe solução ambiental que se sustente sem inclusão social e viabilidade econômica”, afirmou. Segundo ele, a inovação é o principal instrumento para tornar essa equação possível.
“Se uma solução não for economicamente viável, ela não ganha escala. É a pesquisa, a ciência e a inovação que permitem transformar boas ideias em soluções capazes de produzir impacto real.”
Agopyan também alertou para a necessidade de desenvolver estratégias adaptadas à realidade brasileira.
“O que funciona na Europa nem sempre funciona no Brasil. Precisamos construir respostas compatíveis com nossas características econômicas, sociais e ambientais.”
Sobre o SP Conecta
Promovido pela InvestSP em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), o SP Conecta integra a Agenda SP+Verde, iniciativa do governo estadual voltada à atração de investimentos e à implementação de políticas ligadas à transição ecológica.
Ao longo de dois dias, o evento reúne representantes do poder público, da iniciativa privada, da academia e de organismos internacionais para discutir caminhos para ampliar a resiliência climática, fortalecer a segurança hídrica e consolidar São Paulo como polo de investimentos sustentáveis.