Em parceria com UFSCar e USP, o instituto localizou novas populações de Aristida ekmaniana e Aristida macrophylla em Araraquara, São Carlos e Itirapina
Duas espécies de gramíneas nativas do Cerrado, listadas como “presumivelmente extintas” no Estado de São Paulo desde 2016, foram redescobertas em áreas dos municípios de Araraquara, São Carlos e Itirapina. A confirmação veio com o trabalho de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), e da Universidade de São Paulo (USP). O estudo baseou-se na comparação das novas amostras com o acervo histórico do herbário da instituição e o achado das espécies Aristida ekmaniana e Aristida macrophylla, que sobreviviam em ambientes alterados pela ação humana, como bordas de estradas e pastagens.
A descoberta é descrita no estudo “Redescoberta de espécies presumivelmente extintas de Aristida no estado de São Paulo, Brasil”, realizado pelos pesquisadores Lucas Dias Sanglade, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Maria Tereza Grombone Guaratini, Cíntia Kameyama e Regina Tomoko Shirasuna, do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA); Raquel Stucchi Boschi e Dalva Maria da Silva Matos, da UFSCar; e Vânia Regina Pivello, da Universidade de São Paulo (USP).
As gramíneas nativas Aristida ekmaniana Henrard e Aristida macrophylla Hack integram, desde 2016, na lista oficial de espécies ameaçadas do estado de São Paulo na categoria “presumivelmente extintas”. Durante trabalhos de campo realizados em 2022, os pesquisadores localizaram novas populações das duas espécies, demonstrando que plantas raras podem permanecer décadas sem registros científicos e reforçando a necessidade de ampliar os esforços de monitoramento e conservação da vegetação nativa.
A Aristida ekmaniana foi registrada novamente no município de Araraquara. Até então, os únicos registros conhecidos da espécie no estado remontavam ao início da década de 1960. Já a Aristida macrophylla foi encontrada em São Carlos e Itirapina, onde os pesquisadores identificaram pequenas populações fragmentadas e sujeitas a diferentes pressões ambientais.
Com base nos novos registros, os autores propõem que ambas as espécies deixem a categoria de “presumivelmente extintas” e passem a ser classificadas como “em perigo” no estado de São Paulo.
Descoberta começou com uma identificação equivocada
A redescoberta aconteceu durante um projeto voltado à recuperação do Cerrado, desenvolvido pelo IPA em parceria com a professora Vânia Pivello, da USP.
Segundo a pesquisadora Maria Tereza Grombone Guaratini, do IPA, o estudante Lucas, aluno de Vânia e integrante da equipe, realizava coletas em áreas de cerrado quando encontrou as duas gramíneas. A hipótese inicial era de que se tratava de espécies invasoras, comuns em áreas degradadas.
A verdadeira importância do achado só foi revelada após a análise das amostras por especialistas do Herbário Maria Eneyda P. Kauffmann Fidalgo (SP), do IPA. “Quando Lucas coletou as espécies e trouxe para nós do IPA, a Regina, que é taxonomista e especialista nesse grupo de gramíneas, comparou com as plantas que temos no herbário. Foi aí que ela descobriu que eram espécies criticamente ameaçadas, presumivelmente extintas”, relata a pesquisadora Cíntia Kameyama.
As amostras coletadas passaram a integrar o acervo do Herbário, que possui uma das mais importantes coleções botânicas do país, ampliando o registro científico permanente da flora paulista.
Áreas degradadas também abrigam biodiversidade
Além da redescoberta das duas espécies, o estudo chama atenção para uma questão mais ampla: a biodiversidade pode estar subestimada em áreas consideradas degradadas ou de pouco interesse para pesquisas botânicas.
Segundo as pesquisadoras, a ausência de registros por décadas pode estar relacionada tanto à dificuldade de identificação dessas gramíneas quanto à escassez de levantamentos botânicos em ambientes alterados, como acostamentos de rodovias, terrenos abertos e pastagens. Mesmo degradadas, essas áreas podem funcionar como refúgios para espécies raras da flora nativa.
Para os autores do estudo, o caso reforça o papel dos trabalhos de campo, das coleções científicas e dos inventários de biodiversidade na conservação da flora brasileira. Em um cenário de redução dos remanescentes de cerrado e expansão urbana, a descoberta mostra que ainda há muito a ser conhecido sobre a biodiversidade paulista.
“O cerrado de São Paulo é pouco conhecido, porque a maioria da população associa a conservação apenas à Mata Atlântica e ignora a riqueza desse bioma no estado. O Brasil é o país mais biodiverso do planeta com uma flora que abriga cerca de 41.000 espécies. No Estado de São Paulo estima-se a ocorrência de cerca de 9.600 espécies de plantas. O cerrado brasileiro é a savana mais diversa do mundo e também o bioma mais ameaçado atualmente”, afirma Cíntia.
Lista de espécies ameaçadas
A lista de 2016 apresenta 1.088 espécies ameaçadas, sendo 368 presumivelmente extintas, 15 extintas na natureza, 57 em perigo crítico, 271 em perigo e 377 vulneráveis. A grande novidade daquela lista foi a inclusão de espécies do grupo das briófitas, popularmente conhecidas como musgos, com 76 espécies ameaçadas, em um total estimado de 900 espécies para o estado de São Paulo. O número total de espécies ameaçadas diminuiu em relação à lista anterior (2004), de 1.086 para 1.012, desconsiderando as briófitas.
A expectativa é que as duas espécies sejam reenquadradas na próxima atualização oficial da lista paulista de espécies ameaçadas prevista para 2027. Embora tenham sido redescobertas, elas continuam sob risco de desaparecimento.
“As Aristida foram encontradas novamente. Continuam ameaçadas, mas não estão extintas. Elas permanecerão nas listas de espécies ameaçadas, porém agora existe a comprovação de que ainda sobrevivem na natureza. Essa descoberta mostra a importância do trabalho dos pesquisadores do IPA, que continuam realizando coletas e ampliando o conhecimento sobre a flora paulista”, conclui Maria Tereza.