
20/10/2026
Evento em Ribeirão Preto debateu negócios, financiamento e substituição do diesel por biometano na transição energética em SP
Apontada como polo estratégico para o desenvolvimento do biometano e da transição energética no interior paulista, a cidade de Ribeirão Preto foi palco do workshop Conecta Biometano SP, evento que reuniu representantes de secretarias estaduais, entidades setoriais e empresas privadas para um amplo debate sobre as perspectivas do mercado de biometano, oportunidades de negócios a partir da transformação de resíduos, estratégias para os setores sucroenergético e de aterros sanitários, além da conexão entre produtores de biogás e mercados consumidores.
Realizado no último dia 15 pela Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), por meio da Subsecretaria de Energia e Mineração, com apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da unidade de Ribeirão Preto do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), o evento revelou detalhes da parceria técnica entre o governo paulista e a Swedfund, instituição sueca de fomento ao desenvolvimento. O acordo foca na valorização do digestato (biofertilizante) e na viabilização e estruturação técnica de polos regionais de biocombustíveis, tendo as regiões de Ribeirão Preto e Araçatuba como as grandes referências do plano estadual. O acordo internacional prevê um investimento de R$5 milhões, totalmente custeado pela instituição sueca, para viabilizar estudos técnicos avançados.
“A parceria técnica entre o governo paulista e a Swedfund nos mostrou que, assim como Araçatuba, Ribeirão Preto é um importante e promissor polo estratégico para o desenvolvimento do biometano e da transição energética no interior paulista, que concentra mais de 20% do potencial do estado, tendo do do setor sucroenergético como de aterros sanitários. A substituição de óleo diesel por biometano é uma das principais apostas para alavancar a produção desse biocombustível. A região de Ribeirão Preto já conta com importante projeto de transporte sustentável de caminhões movidos a biometano.”, explicou Marisa Barros, subsecretária de Energia e Mineração da Semil.
Para Josiani Napolitano, presidente-executiva da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), a região de Ribeirão Preto representa um dos eixos mais estratégicos para a transição energética e descarbonização do transporte pesado no Brasil atualmente. “O interior paulista, especialmente a mesorregião de Ribeirão Preto, é um dos principais polos de potencial de produção de biogás e biometano, com destaque para os resíduos do setor sucroenergético. Estudo da Fiesp, com participação da ABiogás, aponta que essa mesorregião concentra cerca de 24% do potencial estadual”, afirmou Josiani.
Ela destaca que o biometano é uma ferramenta estratégica para substituir o diesel, reduzir a dependência externa e proteger a logística nacional de choques de preços internacionais. “O Brasil depende de importações para atender cerca de 30% do consumo de diesel, o que expõe o frete e o transporte rodoviário às oscilações do câmbio e dos preços internacionais. Ampliar a produção nacional de biometano contribui para reduzir essa dependência. É uma alternativa estratégica para descarbonizar frotas rodoviárias pesadas, com tecnologia já disponível em caminhões e ônibus movidos a gás. No transporte marítimo, também há oportunidades, principalmente com o biometano liquefeito, o bio-GNL, em embarcações compatíveis e com infraestrutura adequada de abastecimento”, explicou Napolitano.
Panorama e perspectivas do mercado de biometano
Laís Almada, diretora de Petróleo, Gás Natural e Biocombustível da Semil, apresentou um panorama e as perspectivas do mercado de biometano paulista. Atualmente, 44% da capacidade instalada de biometano em SP é do setor sucroenergético e 82% da capacidade de biometano do setor sucroenergético está instalada em SP. O setor já opera 4 usinas em SP e 7 no país.
“O biometano representa a ampliação do portfólio de produtos das usinas de cana e reforça a importância da indústria para a descarbonização do transporte. O estado de SP concentra hoje 09 das 21 plantas de biometano do Brasil, com capacidade para produzir cerca de 700 mil m³/dia. Esse volume é suficiente para atender a todo o consumo atual de gás natural residencial do Município de São Paulo, por exemplo, ou seja, mais de 1,6 milhão de unidades consumidoras”, explicou Almada.
A diretora da Semil lembrou que o estado impulsiona a adoção de veículos pesados a partir da isenção temporária do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA). “Os ônibus e caminhões à GNV terão isenção de IPVA até 31 de dezembro de 2029. De 2024 para 2025, a venda de caminhões à GNV em São Paulo praticamente triplicou, mostrando um avanço maior que no restante do país, comprovando que a política pública já vem mostrando resultados.”, completou Laís.
Carina Couto, superintendente de Regulação de Gás Canalizado na Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp), destacou o projeto Interliga SP, iniciativa estratégica de infraestrutura de gás canalizado projetada para conectar o potencial de produção de biometano do noroeste paulista aos grandes mercados consumidores do estado.
Oportunidades de negócios
O evento abriu espaço para a troca de conhecimento e de oportunidades de negócios no setor de biogás e biometano voltadas à gestão de resíduos envolvendo a transformação de passivos ambientais em fontes de receita, impulsionadas por metas de descarbonização e pela transição energética.
Sérgio Cruz, diretor da Paques LAM, companhia holandesa especializada em tecnologias de tratamento anaeróbio de efluentes e geração, purificação e dessulfurização de biogás e biometano, explicou que a empresa tem liderado a transformação no setor de bioenergia através de tecnologias que transformam passivos ambientais em ativos energéticos de alto valor.
“Atuamos com tecnologias para limpar o biogás, removendo componentes corrosivos como o sulfeto de hidrogênio, e viabilizar seu uso em caldeiras, motores elétricos ou veículos. Atendemos indústrias de diversos setores, como o sucroenergético para tratamento de vinhaça, alimentício e de papel e celulose. Trata-se de um mercado de valorização de biogás altamente promissor, impulsionado pela transição energética global e pelo endurecimento das regulamentações ambientais”, explicou Cruz.
Conexão: produtores X mercados consumidores
Durante a programação do evento, representantes de concessionárias e empresas do setor de transportes, apresentaram propostas de como aproximar a oferta dispersa da demanda concentrada, desafio estratégico e logístico para que o setor de biogás alcance escala comercial no estado e no Brasil.
Representante da Necta, companhia de distribuição de gás natural no noroeste paulista, apresentou o projeto Cidades Sustentáveis da Necta, que tem como objetivo transformar Presidente Prudente na primeira cidade do Brasil abastecida integralmente com biometano. A iniciativa retira o biometano do ambiente isolado das usinas sucroenergéticas do interior paulista e o injeta diretamente na malha urbana. A meta é conectar mais de 5 mil clientes comerciais, residenciais e industriais em Presidente Prudente.
Representante da TBG (Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil) apresentou o projeto Hub de Biometano para conectar produtores de biometano à malha nacional de transporte de gás natural, viabilizando o acesso a diversos mercados consumidores. A conexão à malha da TBG dá acesso a consumidores em toda a extensão integrada de gasodutos nos 5 estados de atuação da companhia: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Guilherme Takamine, da Shell Energy, apresentou o papel estratégico do comercializador na cadeia do biometano ao assumir o risco contratual da operação e atuar na prospecção e conexão de consumidores interessados neste combustível renovável. “Nesse cenário, o comercializador atua como um agente fundamental para dar segurança comercial aos projetos, estimulando a demanda e viabilizando a inserção do biometano em mercados cada vez mais amplos”, explicou Takamine.
Caso concreto: substituindo óleo diesel por biometano
A programação incluiu a apresentação de um caso concreto de substituição de óleo diesel por biometano. Representantes da TransJordano, companhia que atua no segmento de transporte rodoviário e logística de produtos granéis líquidos, combustíveis e cargas perigosas, apresentaram o projeto Corredor Verde em parceria com a Ultragaz, que também apresentou soluções logística para o biometano no evento. O projeto vai conectar Sumaré, Ribeirão Preto e Cubatão, criando um eixo de abastecimento de biometano entre o interior paulista e a região do Porto de Santos. A iniciativa prevê 100 caminhões movidos a biometano até dezembro de 2026 e pontos de abastecimento que poderão atender também outras transportadoras. Segundo a empresa, a operação completa poderá evitar cerca de 6.486 toneladas de CO₂ equivalente por ano.
Atração de investimentos e soluções de financiamento
Por fim, o evento debateu a atração de investimentos e soluções de financiamento estruturadas para o setor. Stefano Gatti, Superintendente de Sustentabilidade e Impacto na Desenvolve SP, agência de fomento do Governo de São Paulo, trouxe exemplos de linhas de crédito voltadas para a sustentabilidade, transição energética e redução de emissões, como a linha Economia Verde, que apoiam iniciativas como projetos de biogás e biometano.
“Oferecemos suporte financeiro estruturado a projetos de sustentabilidade e transição energética, incluindo as cadeias de biogás e biometano. O apoio ocorre tanto de forma direta por suas linhas tradicionais quanto por meio de parcerias e fundos especiais voltados a biocombustíveis e descarbonização”, afirmou Gatti. Ele explica que há linhas de financiamento com prazo de até 120 meses e carência de até 36 meses. “Fomentamos financiamentos para projetos sustentáveis para, por exemplo, aquisição de máquinas, equipamentos, veículos utilitários e projetos nas áreas de saneamento e resíduos”, disse.