
20/05/2026
Fêmea adulta atropelada em Juquiá passou por cirurgia delicada, reaprendeu a viver nas árvores e agora retorna à Mata Atlântica
Uma história de recomeço terminou entre os galhos da Mata Atlântica. Após 60 dias de tratamento e reabilitação no Cetras de Registro, uma fêmea adulta de bicho-preguiça (Bradypus variegatus) voltou à natureza em uma área preservada do Parque Estadual Carlos Botelho, sob gestão da Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
O animal chegou ao centro em fevereiro de 2026, depois de ser atropelado às margens de uma rodovia em Juquiá. O resgate aconteceu justamente em um dos raros momentos em que as preguiças descem das árvores: a cada sete a dez dias, elas vão ao solo para urinar e defecar, e é nesse deslocamento silencioso e lento que acabam mais vulneráveis aos atropelamentos.
Apesar de não apresentar lesões graves em outros órgãos, ela sofreu ferimentos severos em uma das mãos. Duas das três garras do membro dianteiro esquerdo estavam fraturadas e precisaram ser amputadas cirurgicamente. Metade da terceira garra foi preservada.
As garras das preguiças têm uma estrutura muito particular: são ossos revestidos por queratina — o mesmo material presente nas unhas e cabelos humanos — e funcionam como verdadeiros “ganchos”, essenciais para que o animal consiga permanecer pendurado e se movimentar entre os galhos durante praticamente toda a vida.
Após a cirurgia, começou um longo período de recuperação. A equipe veterinária acompanhou diariamente a evolução clínica do animal, com cuidados voltados ao controle da dor, alimentação e adaptação à nova condição física. Aos poucos, a preguiça voltou a escalar, se deslocar entre galhos e se alimentar normalmente.
“Preguiças são animais extremamente delicados em reabilitação. Elas têm necessidades muito específicas e qualquer alteração pode gerar estresse importante. Ver essa fêmea recuperada, adaptada e novamente pronta para a vida livre é muito gratificante para toda a equipe”, destaca Hanna Sibuya Kokubun, chefe de departamento do Cetras de Registro.
Consideradas extremamente sensíveis em ambientes de cativeiro, as preguiças exigem cuidados muito específicos relacionados à temperatura, alimentação e ambientação. Por isso, o caso foi celebrado pela equipe como um importante sucesso de reabilitação.
A soltura de uma fêmea saudável e em idade reprodutiva representa também um ganho para a conservação da fauna silvestre da Mata Atlântica e reforça o papel dos Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres no resgate e recuperação de espécies brasileiras.
“Além da recuperação clínica do animal, a escolha da área de soltura dentro do Parque Estadual Carlos Botelho foi fundamental para aumentar as chances de sucesso da reintegração à natureza. A região apresenta características ambientais muito semelhantes à área onde o animal foi resgatado, com vegetação preservada, disponibilidade de alimento e conectividade florestal compatíveis com as necessidades da espécie. A devolução em uma Unidade de Conservação também contribui para o fortalecimento da população local de preguiças-da-mata-atlântica, especialmente por se tratar de uma fêmea adulta e apta à reprodução”, destaca a gestora do Parque Estadual Carlos Botelho, Nathalia Zandomenegui.
Esta não é a primeira história com final feliz envolvendo preguiças no Cetras de Registro. Em julho do ano passado, outro indivíduo reabilitado pela unidade foi devolvido à mata no município de Registro, em uma soltura realizada pela secretária da Semil, Natália Resende.
Imagens do bicho-preguiça: https://we.tl/t-JBSivM6BGtqRN5OH