26/06/2026

Aproximação da felina a propriedades rurais em busca de alimento chama atenção para o aumento dos conflitos entre pessoas e fauna silvestre

Voltar para a floresta nem sempre é apenas uma questão de abrir uma caixa de transporte. Foi o que aconteceu com uma jovem jaguatirica (Leopardus pardalis) que, após meses de tratamento e reabilitação no Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de Registro (Cetras-Registro), da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), voltou à Mata Atlântica nesta quarta-feira (24) completamente recuperada. Resgatada debilitada em uma área rural de Miracatu, a felina precisou vencer uma doença, recuperar as forças e readquirir as condições necessárias para sobreviver sozinha na natureza. 

O resgate ocorreu após moradores perceberem a presença frequente da jaguatirica nas proximidades de propriedades rurais, onde ela passou a se aproximar de criações de aves domésticas em busca de alimento. A Polícia Militar Ambiental foi acionada e encaminhou o animal ao Cetras-Registro, onde começou uma nova etapa de sua história. 

Os primeiros exames mostraram que o animal estava abaixo do peso, apresentava um ferimento em uma das patas traseiras e lesões na cabeça, nas orelhas e no pescoço. A investigação clínica confirmou, então, um diagnóstico pouco comum para animais silvestres da região: sarna. Além do tratamento imediato, foram coletadas amostras biológicas para exames complementares, fundamentais para o acompanhamento do caso. 

A recuperação exigiu paciência. Durante os meses seguintes, a equipe acompanhou de perto a evolução clínica da jaguatirica até que ela estivesse completamente livre da doença. Somente depois de recuperar a saúde e demonstrar condições de retornar à vida livre, ela pôde voltar à Mata Atlântica, em uma área da Reserva Legado das Águas, sem representar risco de transmissão da enfermidade para outros animais silvestres. 

A Reserva Legado das Águas foi escolhida por reunir características que favorecem a adaptação de animais reabilitados. Conectada a importantes Unidades de Conservação do Estado de São Paulo, a área integra um relevante corredor ecológico da Mata Atlântica, oferecendo alimento, abrigo e as condições necessárias para que a jaguatirica volte a desempenhar seu papel na natureza. “O Legado das Águas está conectado com outras importantes Unidades de Conservação do Estado de São Paulo, formando um relevante corredor ecológico. Desde a sua criação, o trabalho desenvolvido na reserva visa garantir que o território esteja preparado para receber diferentes ações de conservação, como a soltura desse animal, que encontrará todas as condições necessárias para a sua sobrevivência, desde alimento até abrigo. Esse momento demonstra a eficiência das parcerias para a conservação da Mata Atlântica e de toda a sua biodiversidade. É um motivo de muita comemoração”, afirma Daniela Gerdenits, gerente do Legado das Águas. 

Para a chefe do Cetras-Registro, Hanna Sibuya Kokubun, cada soltura representa muito mais do que o encerramento de um tratamento. “Quando abrimos a caixa de transporte e vemos um animal voltar para a floresta, temos a certeza de que todo o esforço valeu a pena. Cada indivíduo devolvido à natureza representa uma nova oportunidade para a conservação da espécie e reforça a importância do trabalho realizado diariamente por toda a equipe do Cetras. Nosso compromisso é fazer com que esses animais retornem preparados para viver novamente em liberdade e cumpram seu papel no equilíbrio dos ecossistemas.” 

Um retrato dos conflitos entre humanos e fauna 

A história dessa jaguatirica também chama atenção para um fenômeno que se torna cada vez mais frequente: a aproximação entre animais silvestres e áreas ocupadas por pessoas. 

Com a redução e a fragmentação dos ambientes naturais, muitas espécies acabam circulando próximas a sítios, fazendas e até áreas urbanizadas em busca de alimento ou abrigo. Nessas situações, quase sempre são os animais que saem em desvantagem. 

Além dos riscos de atropelamentos, ferimentos em cercas e agressões, práticas que configuram crime ambiental, a fauna silvestre também fica mais exposta a doenças transmitidas por animais domésticos. A sarna identificada nessa jaguatirica é um exemplo desse tipo de ameaça. Outras enfermidades, como o herpes humano, podem ser fatais para espécies como os saguis. 

A jaguatirica é considerada vulnerável à extinção no Estado de São Paulo, o que torna a conservação de cada indivíduo ainda mais importante para a manutenção das populações da espécie. 

Ao encontrar um animal silvestre, a orientação é nunca tentar capturá-lo, alimentá-lo ou afugentá-lo. O mais indicado é acionar os órgãos ambientais competentes, permitindo que o atendimento seja realizado de forma segura para o animal e para as pessoas. 

A soltura da jaguatirica também reforça um desafio que vem mobilizando a Semil. Desde a criação do Grupo de Trabalho de Coexistência Humano-Fauna, em 2024, pela Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia, a equipe já respondeu mais de 160 solicitações de orientação técnica relacionadas à presença de animais silvestres em áreas urbanas e rurais. Como parte dessa estratégia, a pasta promoveu, em maio, o 1º Encontro de Coexistência Humano-Fauna, em Anhumas, reunindo representantes de municípios paulistas para discutir prevenção de conflitos, manejo adequado da fauna e convivência sustentável. 

Histórias que devolvem a vida à floresta 

A soltura da jaguatirica se soma a outras histórias recentes de sucesso do Cetras-Registro. 

Na semana passada, uma fêmea de gato-do-mato-pequeno-do-sul voltou à Mata Atlântica após quase seis meses de reabilitação. Resgatada ainda filhote depois de ser separada da mãe durante um ataque de cães, ela foi alimentada com mamadeira nos primeiros meses de vida, desenvolveu gradualmente seus comportamentos naturais de caça e retornou à floresta preparada para sobreviver sozinha. 

Em maio, uma preguiça também voltou à natureza no Parque Estadual Carlos Botelho. O animal havia sido atropelado e sofreu amputação de duas garras do membro dianteiro esquerdo. Depois de cerca de dois meses de recuperação, voltou a escalar árvores, se deslocar entre os galhos e se alimentar normalmente antes da soltura. 

Desde sua inauguração, em agosto de 2024, o Cetras-Registro recebeu 1.876 animais silvestres. Ao longo desse período, 479 concluíram o processo de reabilitação e, entre eles, cerca de 62% puderam retornar ao ambiente natural. Os demais foram destinados a empreendimentos autorizados, conforme critérios técnicos e as necessidades de cada espécie. 

Cada soltura representa muito mais do que um número nas estatísticas da unidade. Ela simboliza a oportunidade de devolver à Mata Atlântica animais capazes de exercer novamente seu papel ecológico e demonstra como o trabalho desenvolvido pelo Cetras-Registro contribui para a conservação da fauna paulista. 

Imagens da soltura: https://we.tl/t-j4c9JHORKcJfntUK